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Se tomarmos a sério os programas eleitorais, do PS e do PSD/CDS, podemos concluir que, nestes casos, convergem três linhas de força: a austeridade, a contabilidade (ou a falta dela), e a gramática.

Após oito anos de crescente endividamento e sucessivo empobrecimento do País, os programas destes partidos revelam, agora, insuspeitadas potencialidades da economia em geral e inusitadas linguagens sobre os seus comprometimentos eleitorais em particular.

A austeridade, contas feitas, cura. O crescimento económico, bem vistas as coisas, é uma certeza irreversível. E as promessas, mesmo que subordinadas a um envergonhado e condicionalíssimo «se», podem servir-se em qualquer bandeja eleitoral.

Estão os bolsos dos trabalhadores vazios? Estão, os idosos e reformados, feios e maltratados? Estão os desempregados, uns a aquecer à força no estrangeiro, outros a arrefecer o tempo em estágios ocupacionais e outros desaparecidos, pois já nada lhes aquece nem arrefece, despenteados das estatísticas?

Aparecem os programas eleitorais, com os seus cenários macro-económicos, com a sua meia-dúzia de contas marteladas, a que se juntam mais uma dúzia de «ses», e eis que, de repente, a pobre sociedade portuguesa sacode a sua melena competitiva entre os dez países mais ricos do mundo.

É inútil ler estes programas eleitorais. Os programas destes partidos não são para ler. São para ver. Os candidatos a deputados, eles próprios, não interessam. O que interessa é apanhar, nas urnas, o eleitor. E arrancar-lhes o voto.

Parecem banais estes programas eleitorais? Parecem contraditórios, para não chamar outra coisa, os seus respectivos candidatos? Puro engano. São cabalísticos e de efeito seguro. Um «se as coisas melhorarem, prometemos manter até sempre o Plano de Estabilidade (leia-se, austeridade), mas com prudência e sensatez . . .» lançado de fugida por Passos, vale 500.000.000 unidades de éstreptumicina. Um «se as coisas melhorarem, prometemos manter até sempre o Plano de Estabilidade (leia-se, austeridade), mas com ousadia e inteligência . . .», equivale à vitamina C de dois mil limões, antes dada por Sócrates e, agora, oferecida por Costa.

Estou em crer, que o eleitor português típico, se tal coisa existe, ao ler estes programas eleitorais dirá qualquer coisa do género: «Porra, se a minha avó não morresse, ainda hoje era viva».

Porém, o eleitor que se acautele. Ao ponto a que isto chegou, daqui até Outubro, Passos e Costa ainda o vão contradizer nesse seu «se».

4 de Agosto de 2015

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