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A «coligação PAF» insiste em passar pelos pingos das décimas para levar a ideia de que «o desemprego está a descer».

Já é uma obscenidade brincar às percentagens com um problema tão grave como o desemprego e ouvir o ministro Mota Soares, muito aprumado no salsifré das décimas que descem «consistentemente» é uma mentira já burgessa, a presumir dividendos políticos em forma de salvados extraídos de um mar de destroços.

Mas esta obscenidade do jogo das décimas não esconde o que pretende e revela o que não quer.

Não esconde a realidade bruta do desemprego – no nível efectivo de um milhão e meio de portugueses sem trabalho – e revela que esta gente, tão aplicada na Matemática das décimas, ignora e despreza por completo o quotidiano lancinante de mais de um milhão de portugueses e a catástrofe social que vai alastrando, como lama, pela tessitura do País.

E vão continuar nesta paródia. A obscenidade anda à solta, não há pinga de ética, de moral (por muito que catolicamente se persignem), nem sequer de vergonha que detenha esta gente do PAF, que só pensa no terçar de armas na liça eleitoral, onde o desemprego lhes surge como massa de guerra a brandir, às décimas, em público.

Para dar sustância à tese da «descida do desemprego» fossaram cursos e cursilhos para «limpar» das estatísticas mais umas dezenas de milhares de desempregados pagos com dinheiro público, que o Governo não hesita em esbanjar e que ficarão de novo sem ocupação remunerada mal passem as eleições. Isto sem pormenorizar acções «profilácticas» como chamar os desempregados de longa duração aos centros de emprego sob o chamariz de «nova ocupação» para, afinal, se limitarem a perguntar se «ainda querem figurar na lista», numa subtil pressão para que desistam…

Mas o PS não demonstra mais seriedade do que o PAF a lidar com o assunto, como ficou demonstrado no «espalhanço dos cartazes».

Pondo em prática uma denúncia supostamente substantiva do flagelo do desemprego, o PS lançou cartazes com rostos de mulheres, uma dizendo que estava no desemprego há cinco anos e outra em teor semelhante. Só que veio a apurar-se que era tudo falso – as mulheres não estavam desempregadas, porque trabalhavam na Junta de Freguesia de Arroios, onde a presidente PS as convenceu a «posar para o PS» sem lhes explicar que iriam protagonizar cartazes, o que levou uma delas a admitir uma queixa-crime contra o partido de Costa por abuso de imagem.

O PS explicou o caso com «um engano», viu-se compelido a pedir desculpa às fotografadas, demitiu-se Ascenso Simões da direcção de campanha, mas o que de realmente grave aqui ocorreu foi a flagrante falsidade exibida pelo PS em todo o argumentário do combate ao desemprego, igualando o PAF na indiferença efectiva sobre este drama nacional.

PS e PAF podem formar um galheteiro eleitoral, onde um mentiroso contrabalança o outro.

in Avante a 13 de Agosto

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