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Como se fazem as coisas

Veja-se como se fazem as coisas. Na semana passada houve um evento patrocinado pelo Governo, uma conferência de imprensa “destinada a apresentar as conclusões de uma reunião com os organizadores da conferência mundial de tecnologias de informação WebSummit, no âmbito da candidatura de Portugal para acolher o evento nos próximos anos.” Tudo boas intenções.

Foi Paulo Portas a fazer a conferência e preveniu alguns jornalistas amigos de que iria falar da revisão das contas dos economistas do PS, que incluíam a previsão de que, segundo o modelo do PS, poderia haver uma recuperação de 207.000 empregos até ao final da próxima legislatura. (Alguém explica ao PS que não pode deixar os seus economistas à solta, tão técnicos e apolíticos ao ponto de não saberem que um partido que tem no seu passado cartazes prometendo 150.000 empregos, não pode falar assim…)

Com tão prometedor anúncio por Portas, num evento a que ninguém iria se não fosse a “dica”, estava uma multidão de jornalistas e havia directos televisivos à sua espera. De facto, obter publicidade para o que era uma sessão de propaganda do PAF, não é muito difícil. Que ela seja feita com dinheiros públicos, que pagaram a conferência de imprensa feita pelo Governo, mas na realidade uma sessão de propaganda da coligação, também já ninguém liga.

Como também já ninguém liga ao facto de, depois de estar meia hora a fazer propaganda contra um partido adversário, explicitamente nomeado, Portas com um sorriso cínico dizer que não responde a uma pergunta porque aquela era uma sessão do Governo e não partidária. Não lhe caiu nenhum raio em cima, e continuou a responder à pergunta “partidária” como se nada fosse. Também nada disse, enquanto estava em directo, e nada lhe foi perguntado sobre “as conclusões de uma reunião com os organizadores da conferência mundial de tecnologias de informação WebSummit”.

Alguém quer saber destes abusos? Ninguém.

Como se deveriam fazer as coisas, mas não se fazem
Esperava eu, ou melhor não esperava – isto é uma figura de retórica –, que na meia hora de propaganda passada em directo, as estações televisivas fizessem um esforço de contraditório para minimizar a desigualdade informativa em vésperas de eleições. Ou que, pelo menos, houvesse um grupo de fact-checking que pegasse no que disse Portas e o colocasse à prova. É esperar sentado, porque muitos jornalistas da área económica são firmes partidários do “ajustamento” e da sua legitimação, ou seja do seu sucesso na ultrapassagem da “crise”. A propaganda do Governo para eles é um eco do que andaram e andam a dizer.

Mas, neste caso, como era propaganda partidária directa e sem disfarces, ao menos que pedissem a um partido da oposição ou a alguém crítico deste Governo, que fizesse o contraditório, mesmo assim em desvantagem face ao tempo “limpo” de antena que tivera Paulo Portas. É esperar sentado, porque também isso não houve e quando, mais tarde, há uns comentários soltos, já lá para a noite e em painéis, nada pode equilibrar uma longa sessão de propaganda em directo, sem contraditório.

Sem contraditório como é costume
Portas pôde por isso escapar incólume ao contraditório. Marcelo e Mendes dar-lhe-ão os parabéns pela “inteligência”, ou seja, pela esperteza. Depois de alguém ter ouvido criticar o PS por fazer revisões do seu “cenário” económico, ninguém lembrou a Portas que a coligação era a recordista dos orçamentos rectificativos. Depois de ter ouvido dizer, pela enésima vez, que eram as “empresas que criavam emprego e não os governos”, ninguém lhe perguntou por que razão, se é assim, o Governo dele se vangloria de “ter criado não sei quantos empregos”.

Depois de ouvir mais uma vez as estatísticas convenientes, e mesmo assim arranjadas de modo a serem ainda mais convenientes, ninguém lhe pergunta pelas estatísticas inconvenientes. Depois de ter ouvido Portas a dizer que a coligação não precisa de apresentar contas das suas medidas, visto que elas estão num documento enviado a Bruxelas, ninguém lhe pergunta onde estão os 600 milhões em falta na segurança social e de onde é que tanto milhão vai aparecer. Isto, aceitando-se o número de 600 milhões que também deveria ser escrutinado antes de ser repetido como uma mnemónica. E também não se lhe pergunta como é que ele pode fazer a contabilização das medidas e a sua análise de custos, visto que nada disto vêm no chamado DEA.

É difícil imaginar uma campanha mais desigual
Que o PS só tem feito asneiras, é verdade. Que uma estratégia eleitoral e política suicidária conduz ao que se vê: um partido na defensiva, mole, a pedir “confiança”, vulnerável a todas as críticas, dirigindo-se a quem não deve (e nele não vai votar) e abandonando quem deve (e que a continuar assim também nele não votará), é tudo verdade. Mas as asneiras do PS não legitimam que a coligação tenha conseguido afastar dos debates todos os que lhe poderiam fazer perguntas incómodas, tenha reduzido ao mínimo tudo o que pode sobressaltar uma propaganda que tem todos os meios e os usa e abusa sem hesitação.

Desde “propaganda negra” à habitual manipulação das chamadas “redes sociais”, onde um punhado de gnomos anónimos ou com nome se dedicam a fazer o trabalho sujo e injurioso contra os que a coligação não engana nem intimida – a campanha contra mim, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix e outros, não é espontânea, mas profissional –, retoma as melhores tradições de 2009-2011 sob responsabilidade directa de Relvas e Passos. Será, a seu tempo, denunciada por alguém que não recebeu o pagamento devido ou esperado, mas pode já ser tarde de mais.

A moral pública não está nos seus melhores dias. Quem está no poder, abusa do poder e ninguém lhe pede contas. Muitas vezes nem se nota, tal é o efeito de mitridatismo que se verifica por todo o lado.

in “Sábado” a 28 de Agosto

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