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É sabido que, nas campanhas eleitorais burguesas, o exagero, a distorção e a mentira descarada constituem a argamassa da estrutura, havendo apenas um cuidado na construção da coisa – o de se aparentar uma lógica interna, firme que nem barra de ferro, como dizia o comediante. E, com o andar da carruagem, às tantas nem isso.

Passos Coelho e Paulo Portas, que conseguiram ser atestados, via selo branco e reconhecimento notarial, como dois mentirosos compulsivos em matéria política, foram à capital do Ribatejo dizer coisas particularmente embusteiras.

Portas resolveu socorrer-se duma famosa frase proferida por Álvaro Cunhal no debate com Mário Soares de há quase quatro décadas («Olhe que não, olhe que não!»), para a descontextualizar numa utilização abusiva. Que dizer? Portas é um embuste em movimento e, como a esquecida mas buliçosa sex symbol Mamie Van Doren, acha que falarem mal dele é publicidade e «promoção».

Passos Coelho trazia argumentação mais «robusta» para apresentar aos escalabitanos que se amesendaram com ele, em Santarém.

«Nunca tivemos», disse ele, «um Serviço Nacional de Saúde tão capitalizado, tão pronto a responder aos portugueses».

Mais de um milhão de reformados, que esperam (ou já desistiram) em bichas intermináveis na esperança de uma consulta, que aguardam meses ou anos por uma operação ou dezenas de horas para que os atendam nas Urgências, talvez se rissem (apesar da sua tragédia) se ouvissem tão grosseira mentira. O mesmo se passa com a generalidade da população utente ou com os profissionais de Saúde – médicos de família ou de especialidade, enfermeiros ou médicos anestesistas e por aí fora. A estes profissionais – cujo brio e capacidade de sacrifício é o que ainda vai separando o esmiframento contínuo de recursos humanos e materiais do SNS do caos efectivo e declarado –, esta afirmação de Coelho é um insulto.

Mas o chanceler Passos também garante que «nunca tivemos um serviço público de Educação que estivesse tão ao serviço da formação dos jovens portugueses».

Indubitavelmente, o seu flibusteiro ministerial Crato tem apresado o Ensino democrático e público em investidas sanguinárias e ininterruptas contra as escolas e a sua administração, os currículos e a sua honestidade pedagógica, os professores e as suas carreiras, os alunos e o seu futuro escolar, os pais e famílias e as expectativas em relação ao futuro dos seus educandos.

Será isto que está «ao serviço da formação dos jovens portugueses»?

Por esta palhaçada de Portas com a citação de Álvaro Cunhal e pelas duas frases mentirosas de Passos se vêem as alfurjas para onde vai sempre descendo a campanha do PAF.

Mas que culpa tem Santarém disto, caramba?

 

in “Avante” a 24 de Setembro

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