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As eleições de 4  de Outubro, mais precisamente os seus resultados, têm servido de pasto a posições e posturas  perfeitamente  despropositadas, estalou o verniz democrático como alguém referiu. Despropositadas até olhando as medidas em concreto previstas no programa de governo do PS, uma vez que não configuram, nem pouco mais ou menos, um governo patriótico e de esquerda. 

Trata-se tão só da possibilidade, o que já não é pouco, de impedir a continuação da chamada “austeridade expansiva”, isto é, em vez da rejeição do consumo como pilar de crescimento económico, da diminuição/contenção salarial, da privatização da saúde, educação e segurança social e do esforço fiscal aumentado no trabalho e no consumo e aliviado  no capital, pode ser iniciado um processo de estímulo ao consumo, de recuperação dos rendimentos, impedir a continuação das privatizações e introduzir uma maior justiça fiscal. 

Ora, é este o problema, a inversão na orientação, em vez de aprofundar ou manter a política de austeridade, os propósitos do governo do PS com apoio parlamentar à esquerda são os de aliviar a austeridade e reverter algumas das medidas dos últimos anos. Caiu o Carmo e a Trindade, encontraram-se demónios, desenhou-se o apocalipse no horizonte: fujam, fujam vem aí os comunistas, vai haver pranto e ranger de dentes, o caos tomará conta de Portugal. 

O despeito e a histeria que se têm visto faz a separação entre resultados eleitorais e a situação actual, entre eleitores e “políticos”, como se tudo estivesse desligado. Entendamo-nos, os resultados de 4 de Outubro espelham a singularidade da situação presente, pela primeira vez simultaneamente houve uma baixa votação à direita do PS  (a segunda mais baixa de sempre) e uma alta votação à esquerda do PS  (a mais alta de sempre). Foi esta correlação, decidida pelos eleitores, que levou os “políticos” a agirem como agiram e a situação a ser a que é. 

Façamos agora um exercício meramente académico, imaginemos que era o pólo  CDU/BE quem estava num governo demitido e a coligação PSD/CDS a puxar para a direita um futuro governo do PS. Será que o senhor Presidente da República estaria pacatamente a ouvir todas as agremiações e colectividades do país, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia a aguardarem serenamente o desenlace da coisa, ou já teríamos um clamor a pedir celeridade que a pátria perigava e as reformas tardavam? 

Pois é, tanto à esquerda como à direita, o objectivo da política é estratégico, a táctica e a técnica são instrumentais. A táctica e a técnica animam conversas e discussões, no café e nas páginas de jornais, mas o que interessa mesmo é a política a seguir. 

Entretanto, na União Europeia cresce-se à direita lá pró norte e à esquerda cá pró sul. Em Dezembro veremos o que ditam as eleições em Espanha e no primeiro trimestre de 2016 na Irlanda e como vai evoluir nestes países a correlação de forças. E em Belém? Em Belém ouve-se!

Arouca, 19 de Novembro de 2015

 

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