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Em 2011, o jornalista Ribeiro Cardoso, no seu livro ‘Jardim, a grande fraude’, dedicou um capítulo às ideias de Edgar Silva sobre as situações peculiares e a evolução política da Madeira nestes últimos 35 anos.

Capítulo XXI

O “crime”  do padre Edgar

No  seio  da Igreja da Madeira muitas  vozes se  têm levantado contra   a subordinação/colagem dos bispos pósAbril ao  poder político em  vigor  – para profunda irritação das  hierarquias eclesiástica e  do   partido  no poder. Mas  o caso do  padre Edgar dá que pensar.

O pároco de  Porto Santo, Bonifácio Santos, em  entrevista ao  “DN-M” em 6  de Setembro de  94, a propósito das acusações de  que a Igreja está muito subordinada ao poder político, diz que a coisa é mais profunda:

Não se trata de  estar ligado ou  não  ao  poder político. Há  um  problema, talvez maior, que   é  o  domínio do  poder político-partidário em  relação a toda a vida da sociedade. Em  termos desportivos, culturais e até económicos”.

Em   11   de  Julho do  mesmo ano, no   mesmo jornal podia ler-se uma conversa com   o  padre José Pascoal, que afirmou sem hesitar que nas paróquias da Calheta, onde na altura exercia a sua actividade, havia “verdadeiramente sinais de  miséria”. Falou da existência de  alcoolismo e focos de  analfabetismo. Sublinhou que os pobres eram esquecidos, que denunciar não é  uma atitude partidária e defendeu que um padre não se  deve  meter em  partidos mas pode, sim, ter uma atitude política.

E quando a jornalista – Teresa Florença – lhe  perguntou como é que via o ‘rótulo’ de marxista atribuído a quem levanta a voz  para  falar dos problemas da população, respondeu:

Talvez  seja  mais  fácil   rotular as  pessoas  e   ignorar  os   verdadeiros problemas. É mais fácil  encontrar um  bode expiatório, uma desculpa”.

Já em  2006, o padre José Luís Rodrigues, a exercer no  Funchal, numa longa entrevista   concedida   ao    semanário   “Tribuna   da   Madeira”, intitulada “Ninguém pode atirar  pedras  à  Igreja por   estar  ligada ao poder político”,  criticou frontalmente o  facto dos subsídios à Igreja a terem “atirado para um  canto”. Mas, sublinhou,  não é só  à Igreja que parece acontecer situações destas: “A mais pequena associação e tasca desta  terra   estão  aprisionadas  porque senão  perdem  o  subsídio  ou existem represálias”.

Obrigado,  padre   Edgar.  Tomadas  de   posição semelhantes  –  umas individuais, outras  colectivas –  têm-se  verificado com   regularidade ao longo dos últimos anos no seio  da Igreja madeirense.

Voltemos a 1994. Nesse ano, em  20  de  Outubro, o  “DN-M”  publicava uma desenvolvida notícia intitulada: “Oito  padres escrevem em  defesa de  Edgar”.

O texto, assinado por  H.C., contava a seguinte história   :

“O padre Edgar Silva, num artigo  publicado neste  jornal, criticou recentemente a orientação da Igreja  madeirense. Disse que  a instituição, na  Madeira, estava hipotecada, financeira e politicamente. O Gabinete de Informação  da  Diocese  do Funchal  respondeu  que   os   escritos  e   as atitudes do  padre Edgar devem ser vistos à luz  de  alguém que  afirma ter pouca fé,  o que  o leva a perder o sentido religioso e sacerdotal.

As  divergências, já antes observadas no meio  eclesiástico da Região, não ficaram por aqui. Um grupo de  oito padres, descontente com  a posição do Paço Episcopal, fez chegar ao padre Edgar uma carta de  agradecimento e apoio pelas atitudes assumidas.

Na   missiva,  os   sacerdotes  dizem:  “Obrigado  Padre  Edgar  por   seres cristão. Por seres, antes de  tudo, cristão. Por nos lembrares que  a Fé não é  um  cortejo  de devoções ou  um  ritualismo intimista. Por nos lembrares que  a Fé não  suporta o conformismo dos temerosos e a boa  paz dos que se demitem”.

Tratase  de   um   documento  indirectamente  pouco brando  para com   as directrizes de   D.  Teodoro.  As   palavras  de   incentivo  ao   padre  Edgar revelam  claramente  a   aceitação  de   todas  as  observações do   artigo assinado por aquele membro da Igreja madeirense.

A carta considera a  exposição de  Edgar como  um  forte  apelo ético.  Com considerações   como    esta:   “Acreditamos   que    as   tuas   iniciativas  e propostas de reflexão têm sido, ao  longo  destes anos, uma provocação cívica    estimuladora  e  uma contribuição notável  para  a   consciência daqueles  direitos  fundamentais   da  Pessoa Humana, tantas  vezes ameaçados, na  vida dos mais pobres”.

A solidariedade evidenciada pelos oito padres é ainda expressa por  uma citação da Carta de  S. Tiago  –  “Tu acreditas que  o caminho para Deus é a Pessoa Humana e que ninguém pode amar o Deus que  não  se vê  se não ama o Irmão que  vê” (…)

Maior frescura eclesial. O padre Edgar já há muito andava nos jornais, dada a perseguição de  que era alvo   por   parte  dos poderes político e religioso. Um  verdadeiro ‘study  case’,  o  do  padre Edgar –  e  uma das chaves  para  se    perceber, conhecendo a  sua  história,  a  natureza ditatorial e persecutória do  regime jardinista.

Vejamos, pois, o caso do  padre Edgar – à luz  do  que foi sendo publicado na imprensa periódica da Madeira e do  Continente.

Comecemos pela  edição do  “DN-M”  do  dia   8  de  Julho de  1990, que dedicava um dossiê aos novos ventos que sopravam no  seminário do Funchal.

Entre  várias  histórias,  aparecia  a  do   padre  Edgar,  que  tinha  sido ordenado um ano antes. Começava assim:

Presentemente   faz   parte   da   equipa   coordenadora  do    Seminário Diocesano  do Funchal,  é  assistente  de   movimentos de   acção  católica, dirige um  centro de reflexão cristã – ARCO  – e trabalha com  os  miúdos da pedincha que  vagueiam nas ruas desta cidade.

Não   é  um   beato de   sacristia e  muito menos  traja o  colarinho  e  uma vestimenta a  identificar a  sua formação e  missão  eclesiásticas. É  mais um  dos tantos jovens que preferem os  jeans,  as práticas t-shirts,  dando razão ao aforismo de  que  ‘o hábito não faz o monge’.

Deambula  frequentemente   pela  cidade,   promove  conferências  sobre temas de actualidade e,  neste  momento, está apostado em   ajudar as crianças que  pedem esmolas nas ruas do Funchal.

Entrou no  Seminário com  16   anos e  despertou para tal  pela “via  das questões   sociais”,   pois   afirma   ter    sentido   sempre   “uma   enorme inquietação perante o escândalo da pobreza e das desigualdades”..

Concluído o curso de  Teologia, confessa  que  chegou a hesitar se deveria ou  não  ser padre. A  dúvida residia em  torno  da questão ‘até  que  ponto tomar essa  opção tão radical  poderia  constituir  uma  opção  solidária contra a pobreza e  as injustiças” (…).

fb_edgar___656_Uma história  exemplar.  Com   estas ideias e  este  posicionamento, a hierarquia eclesiástica e o governo olharam de  soslaio o novo  padre que, ainda  antes  de    ter sido  ordenado,  já leccionava  desde  1987  no Seminário do Funchal, onde dera nas vistas pelos métodos seguidos e o arejamento provocado.

Assim,  não  causou   grande  surpresa   que  logo    em    1991,  o   hoje desaparecido semanário “O Jornal” tivesse publicado uma matéria intitulada  “O   crime    do    padre Edgar”,   com    a  seguinte  chamada: “Pressões  cruzadas da hierarquia da Igreja  e  do poder político  regional afastaram da Região o ‘amigo dos putos da pedincha’”.

O resto do  texto explicava tudo: as ideias e as práticas do  padre Edgar estavam a incomodar e  assustar  muita gente, quer dentro da Igreja, quer no  próprio Governo. A energia do  jovem padre  e  o  sucesso das suas iniciativas – quer no  ARCO  –  Espaço de Reflexão Cristã, quer no Seminário  junto  dos  seminaristas,   quer  ainda   na   Escola Aberta frequentada pelos putos da pedincha que estavam a ser alfabetizados para transformar – podiam pôr  em  perigo o status quo.

Era preciso, pois, afastar o padre e dar ouvidos às pressões que grupos organizados de sacerdotes tradicionais faziam junto da hierarquia da Igreja, sem esquecer os  recados que vinham do  lado do  Governo. Por isso D.  Teodoro convidou o padre Edgar a abandonar a Madeira para ir tirar um mestrado ao  estrangeiro.

O   convite  não  foi   aceite  –   mas   pouco  depois  foi   nomeado  pela Conferência Episcopal Portuguesa para o  cargo de  Assistente Nacional do  MCE  -Movimento Católico de  Estudantes, o que o levou para Lisboa.

Aí, durante um ano, por  opçaõ pessoal, viveu numa barraca no  Bairro da Curraleira, “ao lado de  dealers da coca e de  heroína”, como escreveu Lilia  Bernardes no  DN de Lisboa.

Em   93,   contudo,  regressou  à  sua  Madeira, agora como objector de consciência: recusou-se a fazer serviço militar, para cumprir o  serviço cívico  no  trabalho com crianças de  rua. Isto  é,  arranjou forma de  voltar ao  Movimento que ajudara  a criar e que, inicialmente até teve  o  apoio do  governo e da hierarquia da Igreja.

O  seu  regresso não foi  bem visto por   quem tinha  o  poder  político e religioso. Mas  o padre Edgar não era homem para desistir.

Por  exemplo: uma vez,  ao  fim  do  dia, viu um casal com  duas crianças nas arcadas do Tribunal do  Funchal preparando-se para se   deitar  e passar ali  a noite a dormir ao relento. Abordou-os e o casal respondeu que não tinham para onde ir. Disse-lhes: sou padre católico e  o  meu dever é estar aqui convosco até o problema ser resolvido. E perguntou: importam-se que vá  buscar o meu saco-cama? Foi,  voltou e ali  dormiu com  eles. Tolentino de  Nóbrega, correspondente do  Público, contou esta história – que teve  grande destaque na imprensa e incomodou o poder.

Noutra  vez,   estava  sentado  numa  esplanada  a  tomar  café   com   os miúdos da pedincha. Tinham dinheiro para pagar – mas o dono daquele espaço, não gostando da presença daqueles putos que podiam afastar turistas,  quis expulsá-los. O  padre opôs-se e  explicou que os  miúdos tinham todo o direito a estar ali  como qualquer outro cidadão. A polícia foi chamada e a cena repetiu-se. Com  uma diferença: o padre foi preso e levado para  a  esquadra.  Quando pediram a  identificação a  Edgar e perceberam que era padre, ficaram aflitos. Mas  Edgar Silva  não aceitou ir embora: quis saber qual tinha sido o seu crime.

Em  Outubro de  93,  regressado de  Lisboa, foi preso novamente, agora na própria Sé.   Mais uma  vez,  a pergunta sacramental: qual o  crime? A resposta não tinha nada que saber: a polícia estava de  novo  a enxotar os  putos das caixinhas (esmolas) que se encontravam no  adro da Sé, local muito visitado por  turistas. O padre Edgar interveio, questionando a legitimidade dos cívicos. “A observação foi tomada como  intereferência na   missão  dos  agentes  que,  de   imediato,  detiveram  o   padre  para identificação na  esquadra e  abertura do  respectivo processo”– escreveu Tolentino de  Nóbrega.

Por  sua vez,  a jornalista  Isabel Stilwell, do  DN  de  Lisboa, abordou  a questão do  seguinte modo:

É  assim na  Madeira quando  começa o  dia. Varrem-se  da rua  padres edgares, pobres e  outras poeiras que  se podem introduzir nos olhos do turista. Mas não   se  julgue que isto de   prender padres  que   falam aos pobres é  uma ilegalidade ou  um  atentado aos princípios básicos do  ser humano. Na  Região Autónoma há  um  decreto-lei que  proíbe mendigos e indigentes de  frequentar certas ruas. Lá,  já se imagina um  sinal redondo com  um  maltrapilho pintado a encarnado à entrada de  certas ruas (…)”

Escola fechada por razões de Estado. Regressemos ao  texto “Igreja madeirense depende de  Jardim” que, na sequência da prisão do  padre Edgar no  adro da Sé, Tolentino de  Nóbrega escreveu no  “Público”.

Querem  acabar com  esta imagem que  dizem  ser  prejudicial ao  turismo, mas não   tomam medidas de  fundo para acabar com  a  pobreza. Estão contra estes miúdos pobres porque eles são diferentes, não  dependem da caridade laica  ou  da caridade da Igreja, são ousados  e atrevem-se  a vir para  as  esplanadas  onde  estão  os   turistas e   as  outras  pessoas  a consumir. É por isso que  a polícia os  persegue” – diz Edgar, para quem o problema não  se resolve com  o seu internamento, pois a pobreza advém de   “questões  estruturais da  sociedade, não   é  apenas o  resultado  de problemas individuais”.

(…,  Edgar assistiu desgostoso ao  encerramento da Escola Aberta, frequentada   pelos miúdos   da   rua.    A    decisão   partiu   do    governo madeirense e vem na  sequência da denúncia feita pelo  MAC – Movimento do Apostolado das Crianças sobre alegados maus tratos infringidos pelos agentes da PSP  às “crianças das caixinhas”.

O  secretário regional da  Educação  invocou “razões  de   Estado”  para, retirando os apoios atribuídos há  três anos, encerrar a escola.

Razões  de   Estado?  Não   pomos em   causa a  segurança do   país, não somos uma rede bombista. Somos um  movimento da Igreja!”, responde Edgar Silva.

(…)  O  sacerdote  madeirense  critica   ainda  Jardim  por   transformar  a Madeira numa “sociedade totalmente subsidiada, procurando subsidiar tudo e todos para criar uma multiplicação de  dependências”.

Por isso, Edgar defende: “A Igreja  deveria manifestar a sua total independência em relação ao poder político  e até  deveria recusar todos os apoios financeiros, como  forma de  evitar dependências. O próprio  Concílio Vaticano II, na  “Gaudiam et  Spes” (documento sobre a  Igreja  no  mundo actual)  recomenda  que   a  Igreja, quando essa independência  não   está suficientemente  clarificada, deve  recusar os  apoios financeiros, mesmo aqueles a  que  legitimamente tem direito. Essa é  uma das situações que se  aplica nitidamente  à   Madeira,  onde  a   Igreja   está  subsidiada  e, portanto, dependente do poder político”.

Fidelidade aos mais pobres. Pois   bem: passado este tempo todo, a Escola Aberta continua  fechada. Os  putos da pedincha, que todos os anos se   renovam, continuam na  rua.  A  pobreza  de   tanta  gente na Madeira mantém-se. O silêncio de  muita gente, também.

Edgar Silva  já  não é padre. Em  1997 comunicou ao  Bispo do  Funchal a sua desvinculação em  relação ao  exercício do  ministério sacerdotal.

Porém, não mudou uma vírgula aos seus princípios e convicções. Como escreveu  Mónica Bello   numa belíssima entrevista publicada em   1994 pela revista “Grande Reportagem”,  mantém “uma  fidelidade inabalável aos mais pobres”.

Em    1998  inscreveu-se  no    PCP,    foi   eleito sucessivamente para  a Assembleia Legislativa e actualmente lidera localmente o partido.

Edgar  Silva,  com   quem  conversei  longamente  no   Funchal, impressionou-me fortemente. Pelo  carisma, serenidade, determinação, convicções sérias  e   consequentes.  Conhece a  realidade  madeirense como poucos e não diz  uma palavra a mais do  que é preciso dizer – aos jornalistas  como aos seus  colegas deputados  da Assembleia Regional. Assisti a várias sessões do  orgão legislativo da Madeira e vê-se, nele, a diferença:  extremamente  educado  e   seguro, não  entra  nunca  na chicana.  Não   responde  a  provocações. Mantém  o   rumo,  denuncia, propõe.  Coloca  o   dedo  na  ferida,  imperturbável,  tantas   vezes sob comentários alarves e  arruaceiros dos representantes  da maioria. Não será, seguramente, o  único deputado a exibir tal digniddade – mas é, sem  sombra  de   dúvida,  aquele  que  o  faz   de   forma  mais  segura  e impressiva.  Todos o  respeitam –  e  mesmo aqueles que aparentemente não o fazem, olham-no de  baixo para cima.

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