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Num acossamento, a direita reunida no PSD e no CDS barafusta do canto onde se acantonou e denuncia-se, enquanto fala, como descontrolada perdedora.

Visivelmente abalada nos fundamentos do seu poder – o rotativismo do «arco da governação», que os perpetuava no comando do País –, as hostes da direita começaram por classificar as negociações parlamentares à esquerda como «golpe de Estado» (raciocínio supletivo de Manuela Ferreira Leite, a expor o estado de choque da ranchada), a que se seguiu um mês inteiro de despautérios de igual extração («golpada», «manobra ignóbil», «atentado», «ilegitimidade» e etc.).

Seguiu-se o desconchavo no início da legislatura na Assembleia da República, onde PSD e CDS chegaram a chamar a António Costa «primeiro-ministro não-eleito» ou «primeiro-ministro, vírgula, não eleito», estultícia que, a ser lavada a sério, conduziria os seus autores a, de imediato, se demitirem da Assembleia da República, órgão de que ignoram ou desprezam, ao nível mais elementar, o funcionamento, competências e atribuições constitucionais, nomeadamente a de que a Assembleia da República é que determina a viabilidade ou não do governo através da apreciação do respectivo programa, que caso seja rejeitado implica a queda do governo.

Para completar o entremez, o Presidente da República manifestou-se (de novo) um acirrado paladino do governo PSD/CDS, convocando-o para formar governo quando já sabia, de ciência certa (todas as direcções dos partidos à esquerda do PS lhe confirmaram o apoio a um Executivo PS), que tal governo seria chumbado na AR (como foi) e teimando até ao intolerável em adiar a tomada de posse do Governo do PS, fazendo-o, finalmente, com o seu papel presidencial de independência irremediavelmente comprometido.

Seguiu-se a ferocidade cega da direita «a comprometer-se» a nada aprovar na Assembleia da República, remetendo-se ela própria a um gueto raivoso, ressabiado, bota-abaixista e completamente inoperante.

A generalidade dos comentadores começou a alinhar na tese de que tal procedimento só podia explicar-se pela ânsia de provocar eleições rapidamente, na táctica (aliás, conhecida e praticada na União Europeia) de repetir actos eleitorais até que os resultados convenham a quem os propõe.

De concreto, o que se pode inferir deste procedimento da direita é que ainda não conseguiu (ou não conseguiram, dada a existência de duas formações) digerir a derrota eleitoral e, sequer, aceitar os resultados e as consequências de terem perdido a maioria parlamentar.

Certo, também, é que algo de novo se passa no nosso País. Uma realidade que redefiniu o exercício do poder, uma realidade que alargou a todo o espectro partidário com assento na Assembleia da República a definição do governo do País.

Uma realidade irrecusável, que vai moldar o futuro.

in Avante a 10 de Dezembro

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