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Profundo conhecedor da pantalha televisiva, onde durante anos debitou sentenças sem o mais leve vestígio de contraditório, granjeando a simpatia displicente que o público dedica aos famosos, Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) entrou na corrida a Belém convencido de que a vitória eleitoral «eram favas contadas», mas a cada dia que passa torna-se evidente que afinal as «favas» são mais duras de roer do que parecia. Malgrado as sondagens e muita da opinião publicada pretenderem fazer crer que tudo está decidido e que a ida às urnas não passa de um pro forma, a verdade é que MRS tem vindo a perder o pé e as intenções de voto à medida que é confrontado com o seu passado e posicionamento político.

O populismo e demagogia de MRS, que tanto o levam a ir para trás de um balcão de café – não para tirar bicas mas para simular uma familiaridade com um mundo com que não tem afinidade –, como a fazer de conta que não foi fundador, presidente do PSD e seu incansável defensor – são dele as palavras «mesmo quando não parece estou sempre a defender o PSD» – estão a revelar-se pouco convincentes. Talvez MRS esperasse que as suas férias brasileiras com o amigo Ricardo Salgado – esse mesmo, que já foi o «dono disto tudo» e hoje caído em desgraça – ficassem no esquecimento. Ou que ninguém se lembrasse, quando se reclama de pessoa idónea, da famosa história da «vichyssoise», que ficou para os anais da baixa política da direita portuguesa: com a convicção que coloca em todas as sua afirmações, contou tintim por tintim a Paulo Portas, então jornalista no Independente, os pormenores de um jantar restrito em Belém, era Mário Soares presidente, desde os participantes à conversa, passando pela ementa que teria começado pela «vichyssoise». O jantar, soube-se depois, tinha sido afinal adiado e da «vichyssoise» não houve nem rasto. Marcelo inventou tudo. Portas, que revelou a história, viria depois a protagonizar com Marcelo a tentativa falhada de recriação de nova AD.

Agora, mais popularucho, MRS apresentou ao eleitorado uma sopa de letras para dourar a pílula que é ele próprio: diz que é «a esquerda da direita». Foi esta semana, na Guarda, onde numa arruada sem apoiantes, segundo rezam as crónicas, se viu forçado a animar as hostes: «Vamos juntinhos para parecermos muitos».

in “Avante” a 14 de Janeiro

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