Etiquetas

, ,

CZkBohyWcAIwwvg_

cartoon de André Carrilho

Quem ganhou estas eleições presidenciais? A televisão!!! Três candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Tino de Rans são, desigualmente e de modos diversos, produtos da comunicação social, com a televisão a ocupar um lugar central. Comunicação social, com a televisão na linha da frente, que é a ferramenta importante da construção ideológica da realidade que molda e inquina o pensamento.

É a situação actual que vivemos, que se iniciou nos anos 60, anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do Estado se começa a alterar substancialmente passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada, o que paradoxalmente é desmentido quando a situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, conhece um agravamento. Que teve em Maio 68 o seu momento fundamental. Uma situação pós-revolucionária que incorpora as tendências positivas do desenvolvimento capitalista que seria superado pela organização autogestionária das forças produtivas sem alterar a relações de produção. Uma revolução sem revolução nem revolucionários. Fábrica de provocações frustres que, na sua forma mais radical, procura assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera,“tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Situação complexa e contraditória onde o Estado nação foi progressivamente transferindo alguns dos seus poderes fundamentais, como o poder de declarar guerra ou de cunhar moeda, a perca de centralidade e capacidade de comandar as esferas económicas, políticas e culturais. Em que se alarga a superfície global onde se vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. Hoje miséria e riqueza extremas tocam-se com geografias alteradas. Situações que ainda há cinquenta anos eram do 3º mundo existem no 1º Mundo, e em áreas qualificadas do 3º Mundo surgem imagens e poderes do 1º Mundo. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista. Uma época nova que se começa a ser mais nit a partir dos anos 70 com o fim da equivalência do dólar – ouro, a primeira grande crise do petróleo, a definição da paz nuclear. Quando se começa a reconhecer que é difícil ou mesmo impossível garantir o desenvolvimento capitalista com os instrumentos de regulação soberanos internos, dentro dos espaços – nação. Instrumentos de regulação económica como o Banco Mundial ou o FMI, que eram projecções da potência norte-americana, adquirem um carácter supranacional de regulação do desenvolvimento mundial. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo. Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em nome da racionalização e da modernização da produção, está-se a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica que se impõe com violência crescente e multiforme. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento e do lucro. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e a dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística que atravessa fronteiras.

Com extrema agudeza Mário Perniola avalia a situação actual “as imagens ficam dotadas de fortíssimo impacto emocional, interagem com as da moda, do cinema, da televisão, da internet, do grafismo, da publicidade do design, dando lugar a um imaginário social caracterizado pela provocação. A procura de novidade e do efeito, perseguida por si-próprias, implica também uma rápida usura e obsolescência das imagens, que devem ser continuamente substituídas por outras dotadas de maior força de impacto ou características capazes de despertar a atenção.”

É a categoria espectáculo, ao serviço do pensamento dominante do capitalismo no seu estado terminal, anunciada por Guy DeBord e os situacionistas, “em que o espectáculo é a parte principal do tempo vivido no exterior da produção” (Guy Debord). Quer dizer, na vida das sociedades contemporâneas, de toda a vida das sociedades contemporâneas, as relações de produção e a luta de classes daí decorrente, está subordinada às relações de sedução, numa sociedade aprisionada pelo simulacro e a simulação. O objectivo é transformar de forma sólida, o real em representação falsa, em generalizar a alienação. O espectáculo é “a nova do engano (…) a impostura da satisfação (…) a materialidade da ideologia” (idem) a promover a apatia das consciências, a generalização da mistificação, a operacionalidade da indiferença.

As sociedades contemporâneas estão contaminadas pela vertigem da informação que distorce a realidade e molda as opiniões, que mede a democracia pela diversidade dos produtos que se alinham nas prateleiras das montras reais e fictícias. Confluem essas imaterialidades e essas materialidades para criar a aparência de que se privilegia a diferença e, até pelo excesso de oferta, que se incentivam programas e pensamentos independentes quando de facto se constrói um sistema totalitário e dirigista. “A omnipresença mediática faz dos indivíduos seres passivos, despojados e manipulados” (idem) e procura-se reduzir o mundo a um reality show, em que o individuo perdeu a sua individualidade em favor de uma imagem que compõe em função das cameras que o estão a filmar segundo estratégias que se traça para ganhar ao adversário.

A arma maior é a sedução e o mundo político actual usa-a à velocidade da luz. O marketing político programado e descarado, não explica tudo nem esgota o que estará sempre além dele, mas é o buraco negro que vai engolindo e pervertendo as democracias e alimentando vorazmente a política espectáculo, pauperizando o debate de ideias até as reduzir, se possível, aos sound bites. A outra face dessa medalha é a personalização da política que veicula o narcisismo dos políticos. A semente foi lançada nos EUA, em que o narcisismo se tornou num dos temas centrais da vida americana, leia-se a Tirania da Individualidade de Richard Sennett e que tem a sua raiz no star-system cinematográfico. Narcisos à medida e por medida das sociedades estranguladas pela comunicação social, com a televisão em destaque.

Parece um retrato catastrófico, um labirinto a que ninguém escapará ao Minotauro. Não será ao verificar que as massas populares, o público desse espectáculo, não é uniformemente passivo nem ingénuo. É um quadro geral que se tem agravado, que deve ser bem analisado e medido para que as lutas políticas tenham sucesso e se reflictam na áspera luta ideológica que, em todos os azimutes, tem que ser travada.

Estas eleições presidenciais são paradigmáticas. Toda a campanha eleitoral e a imagem que dela se espelhou nos media, os resultados eleitorais são o termómetro dessa realidade em que a sombra da indiferença, vejam-se os números da abstenção, alastra perigosamente. A televisão, sobretudo a televisão foi o grande vencedor. Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Vitorino Silva o Tino de Rans, são por vias muito diferentes que vão da intervenção política e da sua presença continuada por critérios jornalísticos e editoriais com alvos bem definidos aos programas dos gouchas, júlias, gabrieis e teresas guilhermes, todos eles concorrentes para a edificação de um imaginário, a tal realidade que não é real, mas uma construção ideológica e a visibilidade dos personagens dentro desse imaginário. Os outros candidatos, vivendo em satélites, com órbitas mais próximas ou mais distantes desse universo e independentemente da sua qualidade e da justeza das suas ideias, tiveram que fazer prova da sua existência.

O discurso do vencedor e toda a sua campanha são exemplares, sempre em linha com uma imagem elaborada em dezenas de anos em que polvilhou de açúcar e canela, vaselinou as políticas neoliberais que são o palco do seu pensamento político. Proclama, com o hino nacional em som de fundo, a pacificação de plástico do radicalismo político, à esquerda e à direita, para que se mude a forma para não mudar nada ou nada de substantivo. Um Leopardo à escala portuguesa que nem aspira a ser lince da Malcata.

A luta vai continuar, a linha de horizonte não se enxerga, .as armas são extremamente desiguais o que torna mais urgente e necessária a análise destas eleições e dos resultados eleitorais. É a grande batalha contra um estado de coisas que quer impor a ideia de que não há alternativa e que nem é possível sequer pensar que é possível pensar uma sociedade outra. Uma ideologia que, quando não tem necessidade de recorrer à força, abraça com um abraço de urso prsa obrigar a vestir um delicado, sedutor e colorido fato, sempre actualizado pelas últimas tendências da moda, que é de facto um colete de forças que destrói as grandes finalidades históricas e a transformação da vida e da humanidade.

in “PRAÇA DO BOCAGE

Anúncios