Diz-se que as sociedades  da chamada civilização ocidental são sociedades dominadas pelos pelos arquétipos e valores da classe média, das camadas intermédias ou, se quisermos utilizar a terminologia clássica, da pequena-burguesia.

Por força da máquina de produção cultural norte-americana, o seu quadro de crenças impôs-se praticamente em todo o mundo. A fé no consumismo, na competição individual, na independência dos media face ao poder económico, no novo e nas tecnologias, nas redes sociais… Um modo de vida assente na ideia de presente eterno e de descrédito no colectivo, na  experiência, no clássico e nas humanidades.

Na educação das novas gerações, enquadradas neste quadro de valores, surge uma estranha contradição, por um lado a defesa da competição feroz e da existência de um ambiente que seleccione os melhores (exames, rankings, castigo aos vencidos e prémio aos vencedores), por outro lado a superprotecção dos educandos, desculpando-os de todos os insucessos com razões ambientais (o professor dá más notas, é muito exigente,  não motiva, berra, a escola não compreende a personalidade do menino). Será conceito novo, esta  fusão  das teses de Herbert Spencer com uma certa psicologia fofinha que anda por aí?

Para quem se cinge, na educação, ao resultado final, a existência de um ambiente hostil é fundamental. Talvez fosse bom escutar algumas vozes avisadas do mundo do desporto de competição, onde a questão é cristalina como a água – o que conta é o resultado, o resto é paisagem. Há uns anos perguntaram a  um responsável da secção de pugilismo do Boavista porque é que tinham um ginásio tão desconfortável. Resposta imediata – o pugilismo e o conforto não se dão muito bem! Um estágio com o lúcido treinador do F.C. Arouca também seria muito instrutivo.

Tem-se visto tanta preocupação com o “rigor” e o fim dos exames no 4º e 6º anos, como se a educação dos portugueses perigasse com esta mudança ou como se tivéssemos vivido, na última década, uma era de rigor e sabedoria nunca vistos. Entendamo-nos, o objectivo da Escola é formar integralmente as jovens gerações. Portanto, deve ter modelos de avaliação preocupados em identificar o que não se aprendeu e onde existem dificuldades para depois actuar. Por isso o Governo esteve bem em introduzir Provas de Aferição e a meio dos ciclos. Se depois vai disponibilizar os recursos necessários e  envenenar tudo mantendo os rankings, veremos!

Voltando ao início, se calhar este mix de selecção dos mais aptos com psicologia fofinha não  é assim tão estranho ao pensamento pequeno-burguês, ambiente hostil (para os outros) e superprotecção (para os meus). A leitura de “Martin Eden”, a autobiográfica obra de Jack London, talvez seja um bom ponto de partida para uma reflexão sobre o tema.

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