Fruto do ascendente das teses “hayekianas” na direita (e na social-democracia), no caso português particularmente no PSD – na demiurgia iconográfica do partido, uma sobreposição da seta liberal à popular e o desaparecimento da marxista -, leva a que hoje, neste espaço político, se faça uma leitura dicotómica  do mundo, entre o “realismo” (da direita) e  a “ilusão” (da esquerda).

Um tal “realismo”,  auto-classificado de irritante, científico ou “la palissiano” nas três versões disponíveis – da narrativa, dos bem pensantes e dos comuns, respectivamente -, assente na ideia de que só há crescimento económico com redução do custo do factor trabalho, Estado mínimo e Parcerias Público-Privadas. Porquê? Porque só o Mercado, o sector privado e o “empreendorismo” podem trazer prosperidade à Terra.

Esta tese de que só a agenda liberal leva ao crescimento económico e à prosperidade encerra dois equívocos, um de que o crescimento económico de um país depende somente de uma política económica liberal, outro de que o crescimento económico por si só garante o bem-estar geral.

Um olhar para os últimos cem anos da economia mundial desmonta o primeiro equívoco, foram vários os regimes e  doutrinas a conviverem, anos a fio, com robustos crescimentos económicos,  próximos ou na casa dos dois dígitos. Citando só alguns exemplos, de uma ponta à outra  do espectro político: a Alemanha nazi dos anos 30 do século XX, a Europa Ocidental nos 30 anos do Pós-guerra, a China das últimas três décadas ou  a União Soviética até meados dos anos 50 do século passado.

Para o outro equívoco, o de que o crescimento económico por si só garante o bem-estar geral, basta ter em conta que uma taxa de crescimento económico idêntica pode ter níveis de distribuição da riqueza diferentes, ou seja, iguais crescimentos económicos podem gerar diminuição, manutenção ou aumento das desigualdades sociais.

O problema económico português não é o da dicotomia “ilusões”da geringonça versus “realismo” dos reformistas. O problema é que desde o início do milénio  temos uma taxa de crescimento económico praticamente nula, intercalando anos de baixo crescimento (cujo pico foi 2,5% em 2007) com anos de recessão (picos de -3% em 2009 e -7,4% de acumulado em 2011, 2012 e 2013),   e pior do que isso o peso de ordenados e salários no PIB a cair continuamente, de 38,7% em 2001 para 33,7% em 2015.

Ao problema da desigualdade a “geringonça” pode dar resposta. Ao do crescimento económico, a questão já exige avanços de posicionamento político. Sem renegociação da  dívida, rejeição das regras da União Económica e  Monetária e controle público da Banca Comercial o país fica muito limitado na sua acção e sem recursos para, no caso de Arouca,  eventualmente, o regresso do Tribunal ou  a conclusão da Variante.

in Discurso Directo a 3 de Junho de 2016