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Vai o título em inglês porque assim foi a frase dita. Este escrito também poderia chamar-se «Muhammad Ali» ou «Cassius Clay», o que esclarece tudo. O texto de hoje refere-se ao mítico, ainda que muito real, pugilista. A poucas pessoas admirei tanto em minha vida, mesmo quando este só dava socos em cabeças de gente. Na minha, inclusive. Nunca o disse pela simples razão de que estas coisas não se dizem, sentem-se e por aí se ficam. Questão de pudor, parece.

O primeiro murro deu-se nos Jogos Olímpicos de 1960. O segundo soco levou-o Sonny Liston, fazendo do nosso homem campeão mundial de pesos pesados. O terceiro murro foi dirigido ao próprio presidente dos EUA. A porrada foi tanta que o «rei do pugilismo» foi abdicado do título e só parou na prisão, recusando-se a participar numa «guerra a 10 mil Km de distância da América, lançando bombas e disparando balas, contra gente, inocente e castanha, que não tinha feito qualquer mal ao mundo». Eu estava ali, um entre milhões, também prestes a embarcar para África, em mais uma guerra do mesmo género, e foi como um murro no estômago. Conheci, depois, o pulsar da esperança na luta corpo-a-corpo com Joe Frazier, a exaltação africana nos murros dados a George Foreman, algures num ringue do Zaire, e a vontade de mudar, voltando a bater novamente em Leon Spinks, e foi como um soco na cabeça que me converteu em algo melhor, menos egoísta, mais capaz de entrega.

Muhammad Ali ou Cassius Clay não me bateu apenas em mim. Esmorrou-nos a todos, nomeando na violência de seus socos a mais bela das lições, como se em cada murro se desprendesse dos túmulos e outra vez se reencarnasse a imensa ternura da sua sova. Não estou a fazer literatura fácil, tento, como o maior Rei do Desporto, canhestramente, pôr em palavras o que nenhuma palavra pode expressar: o instante em que o humano se torna sobre-humano e, com o mesmo soco, regressa à sua estreme humanidade.

Com que direito o digo? Com o simples direito de quem passou a vida ao murro com os outros. Sim, de quem anda ao murro . . . por ternura!   

7 de Junho de 2016