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Enquanto Arouca ardia, onde estava o seu Comandante dos Bombeiros? Ou melhor que estava fazendo, no Algarve, o sr. José Manuel Carvalho Gonçalves? Ou melhor, porque um comandante de bombeiros se abandona assim, em férias no Sul, em plena época de incêndios no interior Norte?

Estas perguntas, sem dúvidas dramáticas, faço-as em nome do Ferrinho, do Barbosa, e de todos aqueles que, mangueiras na mão, passaram a última semana a salvar as suas casas, as suas árvores, os seus animais, inclusive as suas abelhas.

Que admirável resposta não teríamos, se logo, abrindo de rompante telejornais e em soluços, não tivéssemos o actual presidente da Câmara dizendo aos telespectadores portugueses e à ministra da Administração Interna:

– Aqui estou.

Afirmam alguns gestores surrealistas do AroucaParK que o sr. José Manuel Carvalho Gonçalves há-de voltar, numa manhã de nevoeiro. Entretanto, em Arouca, apareceram uns tipos de Lisboa e uns russos e marroquinos com aviões, a dizer que eram o sr. Neves e o sr. José Manuel Carvalho Gonçalves. Descoberta a fraude, foram recambiados aos locais de origem, enquanto Rossas rebentava em festa.

No dia seguinte, de visita a Arouca, o primeiro-ministro escandalizou os rústicos habitantes das aldeias de S. Macário, dizendo:

– Meus senhores, aquilo era fogo a sério ou era só fogo de artifício?

Esta pergunta, tão tenra, cinco dias depois estalou na face bronzeada do sr. José Manuel Carvalho Gonçalves, como uma bomba:

– Seja qual for a queimadela, esta é a minha principal Preocupação!

Presidente Neves enunciou, fúnebre:

– Os passadiços são o Máximo, mas não são Preocupação!

Soube-se depois, em comunicado local, que PS/ PSD/ CDS descobriam, juntos e cavos:

– . . . temos Bombeiros!

E, subitamente, estes homens converteram-se nos homens mais mediáticos do País. Os jornalistas atulharam-lhes os microfones, os comentadores acotovelaram-se nas colunas dos seus jornais e televisões, as campanhas de solidariedade multiplicaram-se.

A Liga de Bombeiros enviou mesmo, ao sr. José Manuel Carvalho Gonçalves, um postal de Boas-Férias.

Quanto ao sr. Neves, o Conselho de Ministros disse dele um grande telúrico potencial, talvez mesmo ao nível de um outro Sócrates. Os sociais-democratas afirmaram-no um outro Cavaco, principalmente quando ele se declara irresponsável por 80% do concelho (floresta), sendo apenas gestor dos outros 20% (parte urbanística do concelho). Os populistas disseram dele um outro Paulo Portas, cuja inteligência e competência, depois de servir a rés publica, não deixará de servir de igual modo os superiores interesses privados.

A verdade, porém, é que num concelho essencialmente florestal, a repetição de incêndios, ano após ano, acaba por definir a política municipal na sua dimensão autêntica. Também eu, olhando agora para o vazio imenso da floresta ardida, só me dá para perguntar como o Ferrinho ou o Barbosa:

– Porquê é que a floresta, aqui, é mais morte que vida? Onde os planos eleitorais do sr. Neves para a floresta? Onde as intervenções municipais? Onde as quintas sociais? Onde os investimentos? Onde a pedagogia? Onde a vontade?

Só nos resta esperar. Só nos resta esperar que termine o verão, se acabem as férias, e apareça à porta do quartel dos bombeiros, a sorrir, o sr. José Manuel Carvalho Gonçalves, dizendo:

– Aqui estou.

Álvaro Couto, 17 de Agosto de 2016

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