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É os momentos difíceis que se vêem os amigos, diz o povo na sua sabedoria tantas vezes invocada, poucas vezes respeitada e raramente seguida.

Momento difícil vive a República Portuguesa, atacada por fogos traiçoeiros cujas causas inspiradoras e os objectivos com eles perseguidos dificilmente serão do conhecimento público e virão a ser alvo de apuramento levado às últimas consequências, como é de tradição neste país quando se trata de assuntos delicados e trágicos. Especula-se sobre as percentagens possíveis de cada uma das fontes de incêndios, tecnocraticamente arrumadas; captura-se aqui ou ali um suspeito de fogo posto, normalmente «pirómano», «doente mental» ou «cidadão irresponsável», qualificações que cumprem bem as acomodações de consciências asseguradas pelo sempre bem-vindo bode expiatório. E quando não houver mais nada para arder por ora e outras desgraças servirem de pasto ao vampirismo da comunicação social, arrasados os bombeiros que vão sendo levados nos andores da caridadezinha, inventariam-se os milhões de prejuízos – a somar aos milhares de milhões para os banqueiros e outros tantos ou mais sugados por Bruxelas – e passamos adiante: para o ano haverá outra «época de incêndios», com anúncio prévio e medidas oficiais. É assim que tem sido; haja alguém que consiga romper o ciclo vicioso para o país e muito virtuoso para os verdadeiros incendiários.

Uma situação de «terrorismo», qualificou, e com toda a propriedade, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Não existe palavra com tanta actualidade e mais adequada ao que está a passar-se com os incêndios em Portugal, por muito que tal identificação seja omitida, vá lá saber-se porquê. No entanto, os dramas humanos e económicos do que vem acontecendo traduzem uma imensa tragédia que avança perante a impunidade absoluta – e provavelmente eterna – dos autênticos terroristas.

Lembram-se do «Verão quente» de 1975? Com o adjectivo «quente» aplicado a tantos acontecimentos e falsificações da História, que não à tragédia infernal que varreu o Alentejo, então sujeito a incêndios indomáveis, sucessivos e vingativos nas regiões onde a Reforma Agrária ia demonstrar que o país podia viver com o seu próprio pão? Hoje, que a terra alentejana está entregue de novo aos diletantes e abusadores de sempre, ou então ao poder do capital estrangeiro, felizmente são raros os incêndios na região. Os fogos são atiçados noutras áreas, com uma aparência de acaso ou fortuitidade, mas talvez isso corresponda, no fundo, a interesses que não se sintam ainda compensados pelo estado actual de destruição do país e queiram mais. Eles querem sempre mais: afinal não corresponde isso ao comportamento praticado por Bruxelas?

Por isso, neste momento difícil, o tal em que deviam ver-se os amigos, são escassas as provas de solidariedade dos amigos oficiais e dos aliados da República Portuguesa. Na verdade, deles não havia que esperar muito. Em primeiro lugar, são amigos e aliados à luz de decisões e interesses que ignoraram olimpicamente os interesses nacionais e o princípio elementar de pedir opinião aos portugueses; por outro lado, a amizade, a solidariedade, tal como eles a entendem, tem sentido único: de cá para lá, sendo que de cá vão os bens, quantas vezes o sangue e os recursos de sobrevivência dos portugueses; e de lá chegam desprezo, arrogância, exigências contínuas e também subsídios com tal rol de contrapartidas e hipotecas de tantos matizes – para hoje e para sempre – que mais valia ficassem com eles.

Nestes dias em que ardeu em Portugal metade da área total consumida pelos incêndios na União Europeia, os amigos oficiais não mandaram aviões, bombeiros, meios de protecção civil, mas sim, como sempre, exigências sobre o défice orçamental, novas ameaças de sanções multimilionárias para substituir as que foram supostamente perdoadas, novas ordens sobre a execução e elaboração dos orçamentos do Estado português. Enquanto ardiam dezenas de milhões de bens dos portugueses, a União Europeia fazia exigências de dezenas de milhões aos portugueses, ameaçava-os por causa das 35 horas semanais de trabalho, insultava-os por pretenderem mitigar um pouco as malfeitorias da troika.

Ao mesmo tempo, pela voz de generais ficámos a saber que os aviões da Força Aérea Portuguesa não têm, no seu infindável e moderníssimo know-how, a prosaica capacidade de combater incêndios civis. Então, senhores generais? Quando a NATO faz um qualquer exercício, elementar ou de incidência mundial, nunca aí faltam os aptos e bem comportados meios portugueses; quando a NATO determina uma invasão ou promove uma guerra, quantas vezes à revelia da ONU, não descansa enquanto não envolve meios humanos e materiais portugueses; nas recentes cimeiras da NATO, tanto em Gales como em Varsóvia, os comandos da NATO obrigaram os Estados-membros, mesmo os sujeitos a restrições financeiras e orçamentais por parte de Bruxelas, a comparticiparem com maiores percentagens dos seus orçamentos na compra de material de guerra; e ainda recentemente o ministro português da Defesa anunciou uma bonificação de 200 mil euros ao exército fascista e golpista da Ucrânia. Será que no meio deste conjunto de circunstâncias não há meios nem decisões que permitam a existência em Portugal de condições para defender os bens dos portugueses de uma guerra que lhes é imposta, como é o caso dos incêndios? O celebérrimo artigo 5.º da Carta do Atlântico, tantas vezes brandido como ameaça de novas guerras, não poderia servir para uns laivos de solidariedade dos exércitos «amigos», sabendo que o de Portugal está sempre pronto – que remédio! – a obedecer à cadeia de comando instalada em Washington com passagem por Bruxelas?

Para ajudar Portugal nesta guerra vieram aviões de Espanha – à luz de um acordo bilateral –, de Itália – única resposta no quadro da União Europeia –, de Marrocos e da Rússia. Da Rússia, imagine-se, o país contra o qual o governo português então em funções se apressou a aprovar sanções – à custa dos produtores portugueses – por causa do derrube de um avião civil sobre a Ucrânia; o qual, segundo hipóteses credíveis já reconhecidas pela própria BBC, foi abatido por um caça ucraniano.

Diz o povo que é nos momentos difíceis que se conhecem os amigos; mas o povo é sábio e ignorante ao mesmo tempo, esperto e ingénuo simultaneamente; não parece assisado dar-lhe ouvidos. A tragédia dos incêndios demonstrou, porém, que há mundo para lá da União Europeia e da NATO; e que, com os amigos oficiais e os aliados que escolheu, a República Portuguesa não precisa de inimigos.

in “AbrilAbril” a 18 de Agosto