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franciscoUma onda de atentados terroristas tem varrido a Europa. Emergem em todos nós sentimentos de compaixão pelas vítimas e seus familiares e inquietações, muitas inquietações, quanto ao futuro. A besta humana, que supostamente a civilização e a marcha da história deveriam ter removido, ou pelo menos adormecido, afinal anda por aí.

O terrorismo na Europa não é uma novidade, tampouco o designado terrorismo islâmico. O que é novo na Europa é a escala e a frequência dos atentados. Contudo, é bom não esquecer que, desde o início do milénio, o Afeganistão, o Iraque e, mais recentemente, a Síria têm disto semanalmente, e a morte de um inocente e a dor que provoca é igual em todo o lado.

Como se explica e se combate um fenómeno desta magnitude? As leituras que vão sendo feitas não têm ainda a profundidade necessária, porque a enxurrada mediática só confunde e porque parecem existir alguns elementos novos nestes atentados na Europa.

A leitura política, à direita, vê nas identidades e ideias religiosas islâmicas a origem do problema e a resposta (musculada q.b.) na afirmação da “nossa” identidade judaico-cristã, liberal-democrata e capitalista. À esquerda, vê-se um fenómeno com origem nas realidades concretas dos povos e populações marginais (ao) do sistema (agravadas com as intervenções militares no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia…) e que só pode ser superado pela paz e pela alteração das condições de vida dos marginalizados na Europa e no Mundo. Como o espaço é curto não queria debruçar-me nem sobre a origem bíblica do martírio (“E disse Sansão: Morra eu com os filisteus”, Juízes 16:30), nem sobre a dimensão de massas que a França Revolucionária e Napoleão Bonaparte trouxeram à política e à guerra, mas sobre uma certa dimensão individualista do fenómeno actual.

Do que se vai lendo e ouvindo parece que os operacionais, os terroristas, não estão dependentes de comandos definidos nem de planos de acção colectivos. Têm muito pouco a ver com os doutrinados e disciplinados assassinos de Hassan i Sabbah, o velho da montanha, mais parecendo um produto de uma subcultura urbana dos dias de hoje, vivendo (n)o seu mundo com os seus deuses, indiferentes aos outros e ao que há além paredes do seu quarto.

Num Auto-de-fé da Inquisição, a Comunidade, por via dos seus dignatários religiosos, purificava almas, imolando pelo fogo uns quantos que divergiam da manada. Nos presentes atentados terroristas, um indivíduo purifica a sua alma e o seu mundo atropelando, esfaqueando, mutilando, baleando, rebentando uns quantos semelhantes que tiveram o azar de estar à hora errada no sítio errado.

Este mal pode ser individual, a doença, essa, é colectiva.

Pobre humanidade que tarda em se livrar da besta que carrega! 

in Discurso Directo, Agosto de 2016