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A tragédia dos incêndios em Portugal não expôs apenas as insuficiências existentes no nosso País no combate à catástrofe, nem evidenciou somente a coragem e a abnegação dos bombeiros e membros da protecção civil.

Mostrou também que a «solidariedade europeia» não vale um chavo, que a União Europeia, como espaço comunitário de entre-ajuda (como se diz nos seus tratados fundadores) nem fábula é porque não corresponde a nada, em facto.

Não será por acaso que, da UE, apenas a Espanha, a Itália e a França hajam respondido com ajuda efectiva de meios aéreos de combate a incêndios (a Rússia e Marrocos também responderam ao apelo do Governo português, mas são países de «fora da Europa»).

Nem será coincidência que estes países sejam «do Sul» tão resmoneado «pela Europa» dos ricos (a França, embora fundadora da UE com a Alemanha, não deixa de ter os mesmos problemas que os «do Sul», nomeadamente com a praga dos incêndios).

Assim, vimos o que é sempre de uso em capitalismo: quem manda na UE apenas cuida dos seus interesses próprios (e de classe, não o esquecer), ignorando implacavelmente as necessidades (e direitos) «dos outros».

Isto tanto serve para os incêndios como para os refugiados, estes expondo suplementarmente o egoísmo grotesco de países como Alemanha e França, que tiveram (e têm) responsabilidades directas no desencadear do inferno da guerra nos países e povos do Norte de África, do Médio e do Extremo Oriente, que agora demandam refúgio em território europeu e não o conseguem.

A mesma indiferença da União Europeia se espelha no caso da Caixa Geral de Depósitos, o banco público português que continua a ser o pilar nacional da actividade bancária ao serviço do País. Nesta inacreditável novela procura-se esconder o essencial com o acessório.

O acessório (mas não despiciendo, está bem de ver) é a pretensa briga entre Bruxelas e o Governo português, onde se especula afincadamente à volta da invocação da lei portuguesa por parte de Bruxelas para recusar alguns dos administradores propostos pelo Governo português.

O fundamental – o rabo-de-fora com o gato muito mal escondido – é a vontade gulosa da direita em Portugal e da direita que continua a comandar a União Europeia de imporem a privatização da CGD ou, pelo menos, de lhe retirar a proeminência que tem no sector bancário português e a relevância estratégica na economia do País, que só um banco público garante.

O «mito urbano» que se criou sobre a «solidariedade europeia» – defendendo os «europeístas» que apenas a UE a podia e a pode dar – esbarra brutamente nestes dramáticos casos de total ausência de solidariedade.

Os incêndios em Portugal mostraram como esta União Europeia também está a arder – só que finge não estar.