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Foto: EPA/PANAGIOTIS MOSCHANDREOU

Os deuses gregos derrotaram os humanos arouquenses? É a impura verdade. Deste jogo de futebol se fique sabendo que não existe pobreza de espírito. O que há é miséria sem espírito. O caso sendo universátil merece as tantas linhas. Pois o que importa não é o acontecimento mas a gente que há na não-derrota da vida.

Onze homens do F. C. Arouca desafiam outros tantos deuses do Olimp(iakos). Ali está o Vidigal que espreita por detrás da bandeira de Arouca. A bandeira de um pequeno povo. Foi ela que conduziu Gegé ao golo, que este humano abraço guarda para a História. Os deuses foram, logo a seguir, em busca do rosto da inevitável vitória, mas já em tempo suplementar e malfadadamente divino. Para a nossa história o que conta é o verdadeiro tempo do jogo humano, aquele que trouxe a heroica Arouca a primeiro plano, pois ele evoca uma discreta Atenas, sem espada e sem escudo. Por um prolongamento divino e malfadado, bem pode ela erguer a cabeça de Medusa, agora, em triunfo. Porém, no jogo que é jogo, a cabeça de Medusa andou em redor dos humanos jogadores do F. C. Arouca, enquanto o Olimp(iakos) esteve à beira do colapso.

Estando às portas do Olimpo, os arouquenses poderiam acercar-se um pouco mais, poderiam tocá-los mesmo com mais um golo, até depois, se o sorriso da sorte deixasse. Contudo, nunca foram corvos velhos atrás de cortinados.

Dando o exemplo, Carlos Pinho acompanha o desenlace feliz de um intenso labor com a cumplicidade de quem ergueu a voz com firmeza e cuidado. Os jogadores, no lugar dele, haveriam de compor, atrevidamente, a gravata do presidente no fim dos noventa minutos de jogo. Enquanto isso, Vidigal (o maior dos atrevidos) espreitaria ainda até ao fim do tal malfadado prolongamento, como se estes guerreiros arouquenses precisassem ainda de uma estratégia ou de uma ira protectora. Há nestas personagens, presidente, treinador, jogadores, uma autoridade desconcertante que vem da argúcia no querer e da ponderação da urgência. Afinal, era só isso que todos nós, também, precisávamos de perceber!

Olhando para eles, é como se, na arena em que desafiavam os deuses pela primeira vez, todos os arouquenses se deixassem ver espreitando e espalhando o desejo de se fazer para o mundo, desafiadores, tornando claro que não estavam ali para sacudir mais do que moscas, mas para provocar reviravoltas, para dizer sem ambiguidades que os pequenos povos não existem assim os deixem ser grandes.

E, sem ambiguidades, assim se explica como o F. C. Arouca, sorrindo às portas do Olimpo, foi tão necessário para passarmos, mais uma vez, «a flecha do desejo para a outra margem», como propunha Nietzche.

25/08/2016
Álvaro Couto