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bbunnyQuando eu era miúdo não havia pai para os desenhos animados do Coelho Pernalonga. Não havia, mas agora já há. O herói da nova série é outro Coelho que, tal como o Pernalonga, dá passos para trás e para a frente. Daí chamar-se, simplesmente, Passos Coelho. A heroína, no papel de mata-hari, dá pelo nome de uma tal Cristina Miranda, é professora em Viana do Castelo, passou a vida inteira a empilhar coisas, levando chuva e pó nas ventas em cima de um tractor, sem férias, nem almoços fora, nem passeios com os pais.  Em suma, um espírito simples e rústico, para quem o trabalho das babbysiter’s são mariquices e qualquer subsídio de desemprego um roubo ao Estado, mas que, malgré os seus 50 anos, continua a acumular um par de t(r)etas que só visto.

– Ehh! Wat’s up, doc?

O que se passa é que eu ainda não caí em mim, depois de assitir à última série deste Bugs Bunny Show, no qual se incidia sobre a tributação de imóveis avaliados para cima de quinhentos mil euros: quem já tenha visto um porco a andar de bicicleta talvez não se surpreenda de ver a mata-hari em cima de um tractor, porventura enciumada pelo rabinho da Mariana Mortágua; surpreende-me, isso sim, que noutros tempos, Passos Coelho cobiçasse, com a sua servidão fiscal, o pouco dinheiro que os pobres tinham, com o argumento de pôr a «economia a andar para a frente», sendo que, agora, defenda que tributar alguém com um prédio de quinhentos mil euros seja pôr a «economia a andar para trás».   

– Ehh! Wat’s up, doc?

O que se passa é que toda a gente sabe que há mais pobres que ricos. O que passa é que toda a gente também sabe que os ricos têm mais dinheiro que os pobres. O que se passa é que nem toda a gente sabe, que o ex- director-geral da Autoridade Tributária, José Azevedo Pereira, tenha revelado que «as 800 famílias mais ricas de Portugal, representam 0,5 por cento da receita do IRS, quando seria de esperar, pela lei, que pagassem 50 vezes mais».

– Ehh! Wat’s up, doc?

Oscar Wilde escreveu um conto (também com desenhos animados) sobre a estátua de um príncipe com safiras em lugar de olhos. Mas essa estátua tinham-na construído os homens ricos de uma cidade com muitos pobres. E o príncipe pediu a uma andorinha, (esta, aqui, no papel do Doc), que lhe arrancasse os olhos e os levasse aos muito pobres. Sem safiras, a estátua ficou feia. E os homens ricos que a ergueram abateram-na e deitaram-na fora.

– Ehh! Wat’s up, doc?

Passa-se que a andorinha morreu.

Os pobres não.

Os ricos, também, não.

Nem, é claro, o Bugs Bunny Show.

 

 

Álvaro Couto, 20 Setembro de 2016

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