Quem lê habitualmente estas crónicas sabe que aqui não se gosta (e «não se gosta» é o mínimo que é possível dizer) de modernices. Se calhar injustamente, as generalizações são sempre injustas, admitindo também que o presidente da câmara t’rá r’zão se, desta vez, nos repetir que «gostos não se discutem»). Mas convenhamos que existem boas razões para esta crónica. Basta olhar em volta da edição, da Feira das Colheitas de Arouca, deste ano.

Depois dos passadiços sobre o Paiva, a Colheitalândia é a concorrência por assim dizer da Disneylândia em Paris. Com efeito, mal Roy Disney instalara o Rato Mickey em Marne-la-Vallé, abrindo portas a fileiras de pessoas, já Artur Disney Neves andava de fita métrica na mão projectando outros tantos dois mil hectares de atracções e diversões em Arouca, para folguedo do sucesso turístico local.

Mesmo que o velho António de Almeida Brandão fosse vivo e toda a sua feira de produtos da terra, gados de animais e sonhos se mobilizasse a puxar a agricultura e a cultura locais pelas montanhas acima e pelos vales abaixo, quem conseguiria imaginar esta feira de aventuras tão edificantes como as canções de Anselmo Ralph ou «raves» com dj’s em versão agrícola.

A própria Disneylândia de Paris, convenhamos, não está em condições de oferecer às massas da Europa personagens históricas tão emocionantes (e com fogo de artifício tão feliz) como Assunção Levanta Cristas com os tradicionais Três Porquinhos do Sítio na sua perseguição; nem os «bzzz, bzzz» e as ideias luminosas do Lampadinha têm comparação com os planos e estratégias que Paulo Portas prepara para a Mota Engil; nem o Pateta se lembraria, como se lembrou António Costa, em visita de rescaldo aos incêndios, de classificar Artur Neves de homem «moderno» e «europeu»; nem o dinheiro do Patinhas todo junto, incluindo a moeda nº 1, não chegaria para construir a variante que Luís Montenegro, deputado por Aveiro, nos promete cada vez que aparece por Arouca.

Ora, podemos não ter variante, podemos até não ter uma feira com arouquesas e seus badalos, mesmo sem rebanhos de cabras, sem colmeias de abelhas, sem trutas e as castanhas, sem plantas comestíveis ou medicinais, até sem bufos, águias e falcões, mas temos matéria-prima invejável: bons restaurantes, céu azul, rios com passadiços, pedras parideiras e ainda fósseis; são famosos os prémios internacionais de ilusionismo do Turismo, o desenrasca no executivo camarário, o maciço Orçamento Municipal, os números de desemprego e de precariedade social, os gestores do Geopark Arouca são os maiores contorcionistas do mundo, os nossos eleitos os maiores equilibristas nas Assembleias Municipais, a feira está cheia de barracas de farturas, comboios fantasmas, carrocéis, rodas gigantes, poços da morte, fantásticos espectáculos de «marionetes» na Imprensa e na TV; e tudo com fogo-de-artifício e muitas palmas em «happy end».  

Porque se espera, então, para nos virarmos para a exportação de truques e ilusões para Portugal e para a Europa e pormos, finalmente, Arouca a render alguma coisa mais do que remorsos de termos acabado com aquilo que sempre foi a principal marca de trabalho nesta terra – a Lavoura?