Etiquetas

Na televisão, impacientava-se na antecâmara da conversa dominical. Eleito Presidente da República, entrando de roldão na vida pública, mistura a conversa com o pragmatismo da acção. A realidade, diz ele, é mais forte que a ideologia. O que não deixa de ser uma surpresa, para quem vem do PSD, do Direito, do Expresso, da RTP, da TVI, da praia do Guincho e lá do cu do Minho.

Talvez, fosse aí, que ele ganhasse o seu conhecido «bicho no cu». Hiperactivo, não pára quieto. Come à pressa e dorme pouco. A cada minuto, entra e sai do Palácio de Belém. Passeia-se nas ruas, na Câmara dos Deputados, no DCIAP. Dá a cara aos beijinhos de qualquer transeunte, mete o nariz nos Gabinetes Ministeriais e, perante o primeiro microfone que lhe apareça (mesmo quando um microfone mais ignorante o confunde com os demais simples mortais), não deixa passar sequer um dia sem o seu devido comentário (nem que seja sobre o tempo). Nada o atrapalha. Faz sauna, é católico progressivo, vive maritalmente e é um bom chefe de família.

É a terceira geração pós-Salazar. A primeira era Marcelo Caetano. A segunda, Francisco Balsemão. Ele pertence à terceira ninhada. Os tempos são outros. Muito mais sofisticados. Muito mais alegres. Muito mais charmosos. Muito mais democráticos.

A democracia, ela própria, surge-lhe como um romantismo tecnocrático. Não há política. Há políticas. Não há ideologia. Há soluções para cada teste. Solução para o teste económico. Solução para o teste educativo. Solução para o teste laboral. Solução para o teste judiciário. Solução para o teste de defesa militar.  

Portugal é um exercício. A Europa, um exame de frequência. A economia, um concurso. O desafio dos interesses públicos, um treino. O desafio dos interesses privados, um curso semestral. A sua política resume-se às notas de escola. Parlamento, sete. Gabinetes de Previsão Económica, oito. Oposição, nove. Governo, dez. Banca, doze. Comissão Europeia, catorze. Grandes empresários, dezasseis. Igreja, vinte.

Os partidos deixam-no indiferente. Sorri perante as desgraças anunciadas semanalmente por Passos de Coelho e o optimismo diário de António Costa. Pouco hábil, Passos Coelho subestima-o e faz questão de mostrar quanto o detesta, política e pessoalmente. Muito mais hábil, António Costa estende-lhe o guarda-chuva e acolhe-o ao mínimo sinal de chuva ou de outra coisa qualquer que caia do céu. Mostra-se interessado com as conversas dele e muito mais com a sua acção pragmática. Costa tira o rendimento máximo deste presidente engagé com todos os portugueses. A cheia de popularidade que ele tem, também serve como força motriz. Força motriz que, politicamente, rende.

Sociologicamente, ele não é cego, mas vai tapando um olho para continuar a ser rei entre os cegos. Comunicacionalmente, é o mais apto (tanto é capaz de explicar uma coisa como, no mesmo assunto, é capaz de defender o seu contrário). O assunto é, apenas, pretexto. Pura performance, feita quanto baste de bastidores, influência activa e alguma intriga. A eficácia, um fim em si mesmo.

Os Estados Unidos é, para ele, a United States Freedom. A Rússia, o Papão. A África, a construção civil. Brasil, Temer. Alemanha, a Grande Líder. A Festa do Avante, um piscar de olho aos não-crentes.

A opção, para ele, não está entre a Esquerda e a Direita. Está entre aquilo que não é e aquilo que é. Entre aquilo que não é e aquilo que deixa ser. Aquilo que condena ao imobilismo e aquilo que permite performance. A Presidência da República, aproximadas todas as esferas de acção, dá-lhe todas as chances. O álibi ético é este: moldar a realidade de fora para dentro. A ideologia, para ele, é menos ainda: é um exercício de ficção. Ele sabe que a política, limitada que está às coisas miúdas e subalternas da governação, equivalentes àquelas que, na economia doméstica, cabem a uma governanta ou, no Estado, está entregue, afinal, a um chefe de repartição. Que é só (e a isto chegámos) ao que ele pode aspirar. Mas, para ele, Importa pouco ser apenas chefe de repartição para tomar decisões tomadas por outros.

Só que ser chefe de repartição, não é ser inocente. Pode, até, ser culpabilidade. Só que a palavra «culpa» é rica de consequências. Só que a palavra «forte» é rica de causas. Seja União Europeia. Seja Euro. Seja Tratado Orçamental. Seja BCE. Seja Brixit. Seja Constituição. Seja Independência Nacional.  

O tempo, mais cedo ou mais tarde, nos dirá qual é o mais forte e de quem a culpa.

Para já, pelo rumo que o capitalismo leva, a ideologia continua a ser mais forte que a realidade.

Marcelo sabe, perfeitamente, disso. Se ele nos vem, agora, dizer o contrário é porque, então, alguma culpa lhe deve caber, enquanto reconhecido apologista do capitalismo. 

Tomara eu estar a ser injusto – mas para quem?

A Bem da Nação!

Assina

O Tabernista Marxista