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Finda Setembro e o diabo não chegando à nossa terra deixou-me deprimidíssimo. Não por estar um mês inteiro à espera, mas porque não ver, finalmente, o tipo do tridente, em carne e osso, com pés de chibo e um par de cornos na cabeça, é muito mais frustrante que assistir a mais um falhanço nas previsões de um bruxo rasca. Estou, pois, em condições para imaginar como se sentirão os crentes católicos (os quais são a grande maioria dos eleitores nacionais) depois de ouvir Passos Coelho anunciar no Parlamento que o Diabo, o mais tardar, «chegaria em Setembro».

Como diria Pascal, Passos Coelho é um belo espírito (pelo menos para os PSD’s que acreditam nisso), só que não é um verdadeiro bruxo, pelos cânones tradicionais da bruxaria. Bruxo que se preze, pelo menos uma vez na vida, em alguma coisa tem que acertar. Nem que seja, nas coisas mais óbvias e previsíveis. Ora, a probabilidade de Passos Coelho acertar com algo inteiramente óbvio e previsível é inferior à saída da soma 1 no lançamento de dois dados.

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Não tendo categoria para nada, nem sequer para bruxo, o ex-primeiro-ministro é um desses ex-qualquer coisa que, desempregado do governo e da bruxaria, passou a animador (neste caso, a desanimador) a partir do lugar parlamentar que lhe resta. O insucesso das suas profecias «gore», neuroticamente repetitivas, no hemiciclo e junto de certos públicos (não custa a crer que os mesmos que deglutem avidamente filmes de múmias e vampiros) radica nos desvãos obscuros do inconsciente que a psicanálise clássica associa à pulsão da morte.

Ora o Diabo, mesmo não tendo chegado à nossa terra, serve obviamente para alguma coisa: para Passos Coelho ter sobre que falar. Dir-se-á ainda que as circunstâncias de Passos de Coelho o contradizem, já que ele não acerta uma só desgraça e, contudo, a desgraça concentra-se nele próprio.

O que, para desgraça de um aspirante a substituto do saudoso professor Zandinga, não lembra sequer ao Diabo.     

Arouca, 4 de Outubro de 2016