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A última vez que o vimos por cá, ele caminhava sobre as pedras parideiras. Vinha com a mulher Catarina Vaz Pinto, lá da Casa do Burgo, menos gordo e mais famoso, com um atraso de dias nas habituais férias de verão, segundo o diz-se-diz-se no Pão-de-Ló. Há muito de bigode rapado e de cabelo grisalho, mas sempre de melena ao vento, neutralizando-se continuamente pelos brandos costumes da sua mão esquerda. E vinha tão sempre desarmantemente amável, tão público, tão carne-e-osso, que, inopinadamente, fez as honras da casa a uma outra Catarina (a Martins) que, na altura, por acaso ou com caso, também por aqui passava. 

Porém, só as duas Catarinas é que falam. Tirando meia-dúzia de palavras de circunstância, Guterres não guterra, apenas aponta o dedo para a desgraça de cinzas, com o perfil de um deus grego ao vento da serra da Freita. Ele está habituado a toda a espécie de desgraças humanas, daí que mantenha em respeito perante o cenário devastador. As cinzas não mexem, as pedras parideiras não estrebucham, continuam mudas e quedas. A montanha inteira parece stop, aqui-não-vale-que-é-coito, cinzas, pedras e mulheres em gás paralisante, presas ao chão com cola-tudo . . . e, no meio de tudo isto, só uma réstia de movimento. Todos vimos a melena de Guterres ao vento, neutralizando-se continuamente pelos brandos costumes da sua mão esquerda.

Neste episódio que não ficará para a História, fica apenas a metáfora dos brandos costumes na mão esquerda neutralizando as decisivas pulsões da melena de Guterres ao vento. No resto, como sabemos, entre a serra da Freita e Manhattan, em Nova Iorque, há apenas desacerto de horários. Mas a fazer fé nas eleições da ONU e no efeito do vento, no fim da manhã frente à Frecha da Mizarela, o mundo pode andar devagarinho, quase parado, mas não está parado.

Daí que, num país que não tem, na sociologia, na política, essa coisa católica, lassa e risonha, que são as pontes diplomáticas – fosse preciso inventar uma nova ponte 25 de Abril na nossa sociedade. Foi, aí, no meio da ponte que liga Igreja, PS, Parlamento, Governo, ONU, que surgiu António Guterres. Ele inaugurou o Centrão nas principais máquinas partidárias (há quem lhe chame diálogo ou arranjos na sala das máquinas). Um Centrão que é, sobretudo, tangência. Uma tangência que é, sobretudo, Guterres. De modo que houve, num Portugal em tempos idos, três posições fundamentais: a direita, a esquerda e – Guterres.

Sem inimigos, ele teve o tacto de não ter, também, o compromisso das grandes amizades. Onde Durão Barroso falhou, redondo, Guterres sobreviveu, superficialmente chamuscado. Tão superficialmente que, hoje em dia, toda a classe política, entusiasta e pantanal, o aperta nos braços, dizendo, vencido: «Você é o mais capaz de nós, porque ninguém tem coragem para estar zangado consigo!»

De Portugal para o mundo, nem aí também ninguém consegue estar zangado com Guterres. Ele é o único homem que sobe ao Conselho de Segurança da ONU, levando, pelo braço, Obama e Putin. Ele é, no mundo, o único homem que se senta, numa tenda em pleno deserto, e espera, num campo de refugiados, pela Angeline Jolie. Ele é, em todo o planeta, o único homem que obteve, a leste e a oeste, esta coisa insólita: esse diminutivo terno dito pela boca de uma das mulheres mais bonitas do mundo – TONI.

É que Guterres introduziu na ONU – na ONU dos segredos, das negociatas, das burocracias de bastidores – esse outro sentimento: a ternura. Introduziu-a, suscitando-a. Essa a sua imagem, o seu estilo, a sua força. A sua gentileza profissionalizada é absolutamente irresistível. Quem – na verdade, quem? – pode estar zangado com ele? Guterres é demasiado inteligente para se comprometer com uma coisa tão importante que suscite a inveja. Guterres é demasiado inteligente para se comprometer com uma coisa tão medíocre que suscite o desprezo.

O seu compromisso é um pré-compromisso. Ou um post-compromisso. As suas acções são pré-acções. Ou post-acções. A sua elegância é a sua superficialidade. A sua originalidade é a sua falsa humildade. Falsa humildade que o é excessivamente por que nunca enjeitou os trabalhos mais humildes. Falsa humildade que não o é exageradamente por que sempre ambicionou os cargos de maior destaque e os lugares mais bem remunerados. Típicas modéstias bem à portuguesa.

Arouquense que não é, português que não tem de ser – Guterres possui a qualidade dos erros e dos feitos que, afinal, a Pátria cometeu. Dos vícios e das virtudes, afinal, de que somos todos feitos. O orgulho nacional da sua eleição é todo feito daquilo que Guterres nunca disse sobre a Pátria. Pois o que ele disse é suficientemente maleável e bastante elástico para encaixarmos Guterres como alguém que, na realidade, é como nós. Daí, o nosso orgulho nele. Daí, a nossa ideia de patriotismo, com a sua eleição.

Dizem que foi a ONU a querê-lo. Nós preferimos pensar que fomos nós a deixar que a ONU o quisesse. A ONU já foi, no pós-guerra, um compromisso. Uma opção. Ser ONU era, vigorosamente, não ser o lado derrotado da 2ª Guerra Mundial. Hoje, ainda o é. Só que a ONU perdeu a qualidade do seu excesso vencedor. Já não é um compromisso. Já não é uma opção. Ser ONU tanto faz. Porém, nós não vemos inconveniente nenhum em acumular, com Guterres, a ONU.

Com uma personalidade que é o álibi do nosso patriotismo e com o orgulho que é o álibi da nossa Pátria – Guterres é, tal como qualquer Português, uma figura única. Ele demonstra que a maneira de ser português é possível. O nosso engagement com o mundo tem a sua força, mas tem, também, a sua banalidade.

Se fomos nós que descobrimos e demos o mundo ao mundo, também fomos nós que inventámos, por esse mundo fora, uma outra forma de engagement, que, insolitamente, e fundamentalmente, também define e justifica António Guterres, enquanto futuro Secretário-Geral da ONU – o engagement da neutralidade.

Guterrando ao jeito de Guterres  – neutralidade de uma melena ao vento, com brandos costumes  . . .

Arouca, 8 de Outubro de 2016

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