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(a todas as mães da cidade)

Uma madrugada destas, indo eu a dormir dentro de um comboio suburbano, a caminho do Porto, sou acordado, inesperadamente, por minha mãe. Seu telefonema apanhara-me em  contrapé dentro de um sonho: a página quinhentas do mesmo, dava comigo em manobras numa onda do mar, de guitarra na mão em cima de uma prancha de surf, traulitando uma cantiga roubada a Bob Dylan. Após alguns segundos de confusão em que, prima la musica, se embrulhavam na minha cabeça, sais de ondas do mar, guitarras e pranchas, guinchos de comboio e guinchos de telemóvel, caí finalmente na real, ao dar comigo, simplesmente, sentado no banco de um comboio a caminho do Porto. O que queria a minha mãe dizer-me àquela hora da manhã, ainda com o sol a um ponto do ponto de nascer?

– As pessoas estão loucas e as coisas parecem estranhas. Estou fechado num comboio e o meu sangue parou de circular. Costumava importar-me com isso, mas os tempos mudaram . . .

Na ânsia de receber tão inquietante chamada dentro de um comboio, que ia parando em todas as estações, mais lesma que à lesma mais viva, enchendo-se cada vez mais de gente e de ruído, não tive outro remédio senão de ligar o telemóvel em alta voz. Desta feita, foi assim que toda a carruagem se permitiu beber da taça dessa chamada. O alegre casal de estudantes, abraçado à minha frente, e os tristi andante à minha volta, sentados ou em pé, tão gastos quanto eu, e que seguiam também, nessa manhã, no primeiro comboio suburbano a caminho do Porto.

– As pessoas estão loucas e as coisas parecem estranhas. Estou fechado num comboio e o meu sangue parou de circular. Costumava importar-me com isso, mas os tempos mudaram . . .

Sem eu dizer nada, minha mãe começa logo por nos entreabrir um sonho, em estilo tutti vivace. Sonho ocorrido entre o meio dessa noite e o princípio de uma insónia, se se pode dizer que um sonho se entreabre como uma música, uma porta, uma vida, ou o coração, que está normalmente fechado naquilo a que se chama a íntima caixa do peito. Parte do sonho de minha mãe, entretanto, já ela não se lembrava bem. Apenas um S maiúsculo de Sofia, um I grande de Itália e um e pequeno de Escreve, era o que lhe sobrava. E eu sem nada dizendo; só olhava, desorientado, por entre os bancos da carruagem do comboio, passando meus olhos pelos passageiros, à direita e à esquerda, e eles olhando para mim com gáudio, já que maior animação no comboio, só mesmo aquela voz em off, feminina e doce, que anuncia o nome de estações escuras, que se reduzem a apeadeiros de luz no meio do campo, apesar de ser um comboio suburbano, que de suburbano não tem nada, a não ser o facto de ser um comboio a caminho do Porto.

– As pessoas estão loucas e as coisas parecem estranhas. Estou fechado num comboio e o meu sangue parou de circular. Costumava importar-me com isso, mas os tempos mudaram . . .

Enquanto minha mãe continuava no seu monólogo. O público, esse, levado por uma dupla corrente, a do comboio e a do meu telemóvel, preparava-se agora para ouvir a razão de fundo, afinal, de toda aquela conversa. Minha mãe, durante o sonho com uma das netas, em viagem por terras transalpinas, escrevera um poema, que ela primava agora em dizê-lo:

«Vejo-te tão dentro deste sonho/Quando teus pés se afundavam sob os escombros de Altice/novas palavras/crescendo nas asas do teu vestido branco/ergueram-te até às correntes do golfo/que traz os ventos mais quentes para o mar/Então, ao mar foste parar/Tens, agora, um mar de sargaços a bater-te nas pálpebras/A rasgar-te a pele dos sentidos/A abrir-te os passos na direcção do horizonte/Até que, de repente, tu e o mar se transformam em fundo de maré/ construindo uma nova cidade para os homens . . .

. . . entretanto, cai a chamada, deixando o poema suspenso, sem outro destino senão os olhares dos passageiros e o silêncio na carruagem. Um comboio inteiro que só voltaria a dar sinais de si, depois de mais um guinchar dos travões, que se fazia acompanhar por aquela voz off, feminina e doce, que anuncia mais um apeadeiro de luz, algures a caminho do Porto. Pergunto-me, hoje, se o destino desse poema, que anunciava uma nova cidade, não terá ficado, entretanto, colado a um daqueles olhares.

– As pessoas estão loucas e as coisas perecem estranhas. Estou fechado num comboio e o meu sangue parou de circular. Costumava importar-me com isso, mas os tempos mudaram . . .

Lembro-me, ainda hoje, que guardei o telemóvel depois, enquanto o casal de estudantes, à minha frente, allegro ma non troppo, se voltou a abraçar, ao mesmo tempo que o sol nascia finalmente por entre as frinchas de uma das janelas do comboio suburbano, mais lesma que a lesma mais viva, e que de suburbano não tinha nada, a não ser o nome da sua cidade de destino. O destino do poema, esse, fui eu que lhe dei: uma nova cidade, inventada num banco de comboio, que não tendo espaço para crescer, foi atirada pela janela fora, num desses campos entre Aveiro e o Porto, numa madrugada destas, antes que a luz do sol caísse sobre o caminho do Porto. Sobre o outono da velha cidade.

 

01/11/2016, Porto

Álvaro Couto