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Preferi acompanhar o percurso do ex-primeiro ministro português até ao cargo com silêncio em vez de futurologia, prudência em vez dos arroubos patrióticos, quando não patrioteiristas provincianos, de uma elite doméstica comunicante e politóloga que, de facto, não enxerga para lá de Badajoz mesmo que às vezes voe até Bruxelas.

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A eleição de António Guterres para o cargo de secretário-geral das Nações Unidas mereceu uma atenção mediática invulgar, o que é um prenúncio excelente; infelizmente não esteve em foco, dentro dos mil e um registos que acompanharam as peripécias do processo, o desempenho catastrófico e desprestigiante do titular ainda em funções e que, às ordens dos interesses mais nefastos que guiam os negócios mundiais, conduziu a ONU para a negação da sua própria Carta, tornando-se parceira de guerra em vez de intermediária da paz. Digamos que faltou o essencial na abordagem do tema.

Preferi acompanhar o percurso do ex-primeiro ministro português até ao cargo com silêncio em vez de futurologia, prudência em vez dos arroubos patrióticos, quando não patrioteiristas provincianos, de uma elite doméstica comunicante e politóloga que, de facto, não enxerga para lá de Badajoz mesmo que às vezes voe até Bruxelas.

A sua prosaica indignação, até espantação, com os golpismos anti candidatura de Guterres (abusivamente entendidos como «anti-Portugal») desenvolvidos pelas entidades e cérebros da União Europeia do costume é uma pérola própria de quem pensa pelos conteúdos dos jornais europeus ditos «de referência», pelo que não vive neste mundo, quanto muito numa realidade paralela.

Silêncio e prudência também porque, por muito que se explique e argumente – o que nem sequer é o caso –, não existe qualquer ligação prática entre Guterres secretário-geral e hipotéticas vantagens para Portugal: a nacionalidade do responsável executivo da ONU não é um instrumento do cargo, por natureza supranacional.

No limite, seria extraordinário para os portugueses, e para os mais de sete mil milhões de pessoas no planeta, que António Guterres fizesse com que a ONU saísse do atoleiro para que foi conduzida pelos principais dirigentes mundiais da actualidade e travasse os preparativos de guerra global cujo desenvolvimento apenas depende do momento em que for ateado um dos mil e um rastilhos espalhados pelo Médio Oriente e regiões adjacentes.

Uma vez António Guterres eleito secretário-geral da ONU, e devido às diferenças óbvias dos cargos, a sua actuação como primeiro-ministro de Portugal também não deve servir como ponto de referência dogmático para o que se segue. Guterres teve, à frente do governo de Lisboa, espaço e condições para proporcionar melhor vida aos portugueses – o que agora absurdamente se lhe exige –, mas essa foi a oportunidade por ele perdida ao limitar-se a conduzir Portugal na tragédia neoliberal, cujas portas foram abertas pelo inefável Dr. Soares ao chamar o FMI, exponenciada por Cavaco à mais elevada potência, e só agora timidamente barrada, mas sem coragem para enfrentar a sério os ogres de Bruxelas e Berlim. Os mesmos que bem tentaram tramar Guterres, o que nada teve de surpreendente.

O que ditará o êxito ou fracasso do Eng. António Guterres como secretário-geral da ONU são assuntos muito mais abrangentes e ainda mais complexos; fazendo-lhe desde já a justiça de pensar que aprendeu com a sua experiência internacional desde que deixou a política portuguesa, e que conhece o cadáver putrefacto da actual diplomacia internacional com o qual vai ter de lidar.

O Eng. Guterres deve saber – oxalá saiba – que problemas como os da Síria não resultam apenas de Assad ou da Rússia, do Irão ou do Hezbollah; que a cumplicidade com o terrorismo internacional (incluindo o terrorismo de Estado) de países como os Estados Unidos, França, Reino Unido, Israel, Turquia e Arábia Saudita e entidades como a NATO é uma realidade que não existe apenas nas chamadas «teorias da conspiração»; que o problema esmagador dos refugiados no mundo tem a ver com as guerras de rapina e domínio geoestratégico, com a devassa e destruição dos recursos humanos, naturais e o ambiente do planeta, com as actividades lucrativas da guerra, com o enraizamento da ditadura financeira global.

Restaurar a dignidade, a neutralidade e o balanço democrático possível na ONU; activar e tornar eficaz o papel da ONU em todos os processos de paz justa e duradoura dos quais tem estado ausente ou onde é inoperante, como os da Palestina, do Sahara Ocidental, da reunificação de Chipre, da Síria; envolver positivamente a ONU na neutralização dos efeitos nefastos da ressurreição do nazismo incentivada no Leste da Europa pelo fatídico golpe na Ucrânia, integrado numa corrida armamentista e de cerco realizada pela União Europeia e a NATO; estes são apenas alguns passos do exigente programa que o novo secretário-geral tem pela frente.

Os condicionalismos são muitos, a começar pela manipulação do Conselho de Segurança como fonte de tudo o que tem feito jorrar sangue no mundo, do Afeganistão à Líbia, do Mali, Nigéria e República Centro-Africana ao Iémen.

Em boa verdade, o programa é pesado, mas a metodologia para a mudança é intuitiva: estudar a actuação de Ban Ki-moon e fazer exactamente o contrário. Este é o melhor caminho para a ONU deixar de ser um instrumento da indústria de guerra, dos mais egoístas interesses mundiais e transformar-se numa entidade ao serviço da paz e dos direitos humanos de todos – e não apenas de alguns.

Tal missão exigirá de Guterres muita coragem, destemida frontalidade, firme personalidade, argúcia e sagacidade, elevado sentido de risco e muita clarividência perante a falsidade, a duplicidade de linguagens e os conceitos propagandísticos em que assentam os assuntos internacionais, submetendo o humanitarismo, a democracia e a paz como reféns dos êxitos da guerra generalizada. Poderia, porém, encarar-se este desafio de outra maneira? Valeria a pena candidatar-se a secretário-geral para que na ONU – e no mundo – tudo continue na mesma? 

in “AbrilAbril” a 3 de Novembro