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Por boas e más razões Arouca continua mediaticamente forte: futebol, passadiços, incêndios e, agora, os crimes de Aguiar da Beira. Concretamente sobre os crimes de Aguiar da Beira mais não se pode, nem deve, dizer, se nos assumimos como civilizados e a viver num Estado de Direito, que estamos perante crimes graves cujo suspeito é de Arouca, ponto. No entanto, o caso tomou conta de todas as conversas cá na terra e a dimensão do fenómeno mediático é avassaladora. É grande a confusão entre a realidade e as suas representações.

Consideremos duas dicotomias nas representações da realidade que emergem, uma sobre dois olhares locais, outra sobre a prioridade editorial atribuída na comunicação social local e na comunicação social nacional.

Na primeira dicotomia, sobre a “psicologia do suspeito”, temos de um lado uma visão focada na loucura, no desespero, na resistência a autoridades orwellianas por parte de alguém com um trato e personalidade à prova de bala, do outro um olhar que sublinha uma personalidade tortuosa, com um passado de esquemas e o clássico “estava-se mesmo a ver”. Mas, o mais curioso nestes olhares, sejam eles reais ou fictícios, é a proximidade ou distância, de classe ou de grupo, entre quem olha e quem é olhado.

A segunda dicotomia é a hipermediatização do caso na comunicação social nacional e o quase silenciamento  na comunicação social local. A comunicação social local só “viu” o caso quando houve vítimas em Arouca. Como se os eventuais comportamentos de um indivíduo manchassem uma pretensa imagem de Arouca e dos Arouquenses. Arouca não só é mais do que um dos seus indivíduos, como é mais do que a soma de todos os seus indivíduos – nascidos, criados ou cá naturalizados -,  é uma comunidade.

A mediatização ad nauseaum do caso por parte dos jornais e televisões nacionais é um fenómeno comum nestes dias: horas e horas de transmissões,  interpretações e teorias de todo o tipo, directos que não acrescentam absolutamente nada, massacre sobre a vida privada das famílias dos visados…

Uma imagem me ficou na vila, no pico do fenómeno – abandonava-se a  rua e entrava-se em casa ou no café para ver na televisão o que se passava na rua. Sinais dos tempos!

in “Discurso Directo” a 4 de Novembro de 2017

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