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(Aviso: esta história é pura ficção)

Só gostei de futebol quando havia jogadores que me faziam feliz. Agora, como diz o outro – aquele que se auto-proclama «Rei da Táctica» – é tudo uma questão de técnicos mandões e jogadores obedientes: acabaram-se os improvisos, as fantasias, os buracos da agulha, acabaram os meus heróis, Damas, Germano, Eusébio, Coluna, Simões, Oliveira, Chalana, Seninho, Jacinto João, Matateu, Jordão, para quem o jogo não era obediência nem táctica, era alegria e alma, era Arte.

(Por cima do balcão, alguém liga a televisão e todas as cabeças se viram para lá. Na imagem, apenas um corredor colorido de verde e algumas fotos de jogadores expostos nas paredes)

O futebol, dizia eu, perdeu o humor, a poesia, o prazer.

(Agora passa um homem de óculos e cabelos brancos. Por detrás dele, fechando uma porta, surge outro tipo de fato escuro e sapatos castanhos)

O Germano, o Oliveira ou o Jordão, era onde eu estava, possuíam uma elegância irrepetível. Eusébio, como o pintor Malangantana, rematava na quadra com um coração do tamanho do mundo. Coluna foi uma equipa inteira. Jacinto João e Matateu não jogavam futebol, criavam futebol. Damas introduziu nele todos os poderes do instinto e da elasticidade animal e descobriu o que não existe: o Homem-Gato. À falta de replay nas televisões na altura, o público nas bancadas pedia repetição logo ali, em directo. Então, Chalana voltava atrás para driblar uma e outra vez.

(O tipo de cabelos brancos olha entretanto para trás, na presumível direcção da porta, carregando o desdém de uma sobrancelha para o tipo de fato escuro e sapatos castanhos)

Contava eu, que o mister Mário Wilson (ainda não lhe chamavam técnico) dizia, antes da equipa do Benfica entrar, tu fazes isto, tu fazes aquilo, tu fazes aqueloutro, e depois, para Chalana

– Tu fazes o que quiseres.

( – Lagarto, lagarto, lagarto, que aqui há caso. Diz um cliente lá do fundo balcão)

Aonde é que ia eu? Ah, o Chalana fazia o que queria: punha um estádio inteiro de pé, com água na boca, à espera de nova jogada

 (no corredor verde ficam só uns tipos de colete amarelo. As duas personagens de há pouco, desaparecem por seu turno. Ia jurar que os conheço de algum lado)

Com Chalana em campo, dizia eu, era capaz de voltar novamente aos estádios.

(Raios me partam, se o tipo de cabelos brancos não é o presidente do clube do qual sou sócio. E, isso, envergonha-me, não pelo facto dele ser presidente do meu clube, mas pelo facto de eu não lhe pagar as quotas vai para dois ou três anos)

Era sinal, voltando ao assunto trazido assim à tasca, de se terem acabado, finalmente, os jogadores burocratas, funcionários, escrevendo memorandos, copiando minutas, distribuindo circulares. O que vejo agora nos raros momentos em que espreito a televisão, são funcionários. Escrupulosos, obedientes, chatos. Uma espécie de perfeição negativa. Uma monotonia de repartição. 

(o tipo de fato escuro e sapatos castanhos não precisa de apresentações: é sobejamente conhecido por ser presidente do Sporting, cujo estatuto lhe permite sentar-se aos domingos no banco de suplentes da sua equipa, pendurando um cigarro electrónico nos queixos)

Retomando o fio à meada, o único jogador imprevisível que vi ultimamente chama-se Messi e joga no Barcelona.

(há sete minutos que o tipo de fato escuro e sapatos castanhos não faz outra coisa senão dar voltas e mais voltas pelo corredor verde. Há qualquer coisa nele que o faz andar por ali, espreitando volta e meia para o fundo do corredor verde, ao mesmo tempo que vai bufando no cigarro electrónico)  

Aonde é que eu ia? Isso mesmo, nos jogadores portugueses. Ora bem, nessa matéria não alcanço um único: Cristiano Ronaldo que parece ser do que aqui há de melhor não passa de um óptimo amanuense. Cumpridor. E eu não gosto de jogadores cumpridores. Não me espanta, não faz milagres: executa. É um profissional sério. Mas, meu Deus, estou cansado de profissionais sérios. Quero é que inventem no campo o que Fernando Santos pediu precisamente a um «patinho feio», já que nem o «melhor do mundo» estava à altura de tal feito: «Ó Éder, faz qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos loucos».

(entretanto, o presidente de cabelos brancos volta a aparecer novamente no corredor verde. Empertiga-se a cada passada que dá na direcção do presidente do Sporting, que não tem cabelos brancos, já que ainda tem aspecto de menino de copo de leite, e faz quase o dobro dele. Mas, nem isso, amolece o presidente de cabelos brancos. Quanto mais se aproximam, mais os dois se avaliam de alto a baixo, à beira do primeiro rosnido. É, então, que o de cabelos brancos, desempertigando um dedo no ar, inicia os protestos)

Qual bom senso, qual carapuça, era onde eu estava. O bom senso, em desporto, não me interessa um chavo:

(a guerra dos presidentes, prestes a começar, interessa-me mais do que o bom senso. É a vez dos presidentes se empurrarem um para o outro e se ameaçarem aos berros. O de cabelos brancos, por enquanto, fica-se pelos: «Caloteiro», «Vigarista», enquanto o copo de leite, enchendo a boca com qualquer merda, cospe na cara do outro. É a confusão geral!)

Dizia eu, que bom senso, em desporto, não me interessa um chavo: só me interessa que me deixem de boca aberta, que me apaixonem, mas como se o herói é o técnico e, agora, até são os presidentes?

(Não há dúvida que a guerra instalada no corredor verde, promete. O presidente de cabelos brancos, depois de torcer com a mão o cuspo da cara, fica completamente fora de si. Um dos tipos de colete amarelo ainda se anima para o segurar, mas os saltos de fúria são tantos que não há colete amarelo que resista)

Mas como, perguntava eu, se as virtudes são a tácticas do técnico e a paciência dos jogadores? De modo que não vejo. Aborrece-me. E os termos? «Linhas de passe», «pressão alta», «armar a equipa». O improviso tolhido, as «jogadas de laboratório». Vou a um estádio para perder a cabeça, não para olhar para o microscópio ou para ouvir os berros do «Rei da Táctica».

(o corredor verde está agora ao rubro: o copo de leite que, segundo ele, liga o mesmo aos cabelos brancos como aos rebanhos de cabras ou de ovelhas, põe-se agora atrás dos outros tipos de fato escuro e sapatos castanhos, avançando-lhes a sua experiência de caçador na savana africana:: «já vi búfalos mais calmos que este», enquanto puxa mais uma vez pelo cigarro electrónico. Aquilo é um adereço do caraças, finíssimo, próspero. Ficar-me-ia bem ou ficava também eu com aquele ar de copo de leite?)

Ora, onde é que eu ia? Já me lembro. Quando acordei para o futebol, era onde eu estava, não havia treinadores e, muito menos, presidentes: meia equipa de pé descalço e a restante com umas Sanjos, meio rotas, e era tudo o que levávamos para dentro do campo. À porta do balneário traçava-se a táctica numa cruz a giz, enorme, de canto a canto, ao mesmo tempo que os berros da rapaziada faziam estremecer logo as pernas dos adversários:

– Até os comemos!

( – Búfalo é o teu pai! grita entretanto o filho do presidente de cabelos brancos. Aqui, o copo de leite hesita: percebe-se que está ponderar – atira-lhe ou não lhe atira com o cigarro electrónico? Entretanto, dá mais uma passa, o que o faz ficar em estado zen. Vê-se bem que ainda não encontrou a solução. Também à falta de melhor solução, o de cabelos brancos, que continua furiosamente aos saltos, chama por reforços. E os reforços vão chegando ao corredor verde, cada vez em maior número. Mas, insolitamente, apenas examinam a situação de chinelinhas no pé e de toalha à cintura)

– Até os comemos! dizia eu.

( – Não me digam que têm medo daqueles ranhosos? Grita agora o presidente do meu clube aos jogadores, procurando reiniciar o contra-ataque, enquanto ergue o cotovelo, deixando em pendant, uma garrafa de água na mão, para um eventual lançamento de três pontos, impedido a tempo por um defesa da equipa)

Aonde é que eu estava? Ah, até os comíamos: o meio-campo fazia de Eusébio – e comia-os. A defesa fazia de Germano – e mastigava-os. O ataque fazia de Chalana – e engolia-os. Quando o sistema não funcionava, fazíamos todos de Freitas – e, então, íamos-lhes mesmo às canetas. De cachecol, bandeira e barrete, a abraçar desconhecidos na bancada, tornando para casa às fintas porque fomos nós, também, que fizemos o golo. Jogadores adeptos de futebol. Nunca funcionários adaptados aos clubes. Os amanuenses não engolem ninguém: engolem o que o técnico manda. Não pensam: reproduzem. Não criam: copiam. Pobre futebol, pobre de mim. Quando acabarem os técnicos e regressarem os eufóricos que entram de calções a mandar brasa, sem trabalho nem paciência nem pressão alta nem linhas de passe, eu volto. Quando a minha equipa voltar a ser constituída por um gato solitário sob três paus e dez doidos à solta dentro de quatro linhas. Deus seria meu amigo, e vai sendo tempo de mostrar que é meu amigo, se fizesse nascer a minha equipa novamente. Até os comíamos! Foi por isso que deixei de gostar de futebol: agora, só me dá sono.

(coisa que não acontece neste caso: mete mesmo polícia de choque que, entretanto, entra também, pelo corredor verde adentro para acabar com os tumultos. É, então, que os presidentes desaparecem da imagem, enquanto esta se vira para uma sala de imprensa. O filho do presidente do meu clube está a chamar os jornalistas: convêm não poupar nas palavras para o combate definitivo mas, infelizmente, devido a questões de boa educação, o filho do presidente não pode dar fé dos murros e insultos dados a seu pai, e desiste do jogo)

O futebol dá-me sono. Era nisso que eu estava,

(entretanto, logo em contra resposta, um tipo com uma bola de bilhar em cima de um fato escuro e de uns sapatos castanhos, dá testemunho que o seu presidente se limitou a ir à casa de banho, para dar uma mijadela do caracácá, tendo sido entretanto ameaçado de morte pelo presidente do Arouca)

Agora nos jogos de futebol a maioria dos golos também só entra com uma mija do caracácá. O mesmo acontece com as crónicas sobre homicídios: só com uma mija do caraças é que o cronista consegue testemunhar, ao vivo, um verdadeiro homicídio. É a partir desta eventualidade que um dia destes vou continuar a falar sobre futebol. Para já, fico na esperança de pagar as quotas do clube e que a televisão esteja apagada no próximo jogo Arouca – Sporting, para que possa contar, finalmente ao vivo, essa história: cronista testemunha homicídio entre presidentes.

Arouca, 20 de Novembro de 2017

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