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(ao amigo e camarada Ataíde)

Em boa verdade . . .

– Arouca, lá bem em baixo, no inverno do vale, não tem a consistência dos montes que a rodeiam. O ar é húmido, o frio não entra na alma, e não há os verdes puros, nem os trilhos de montanha que duram, nem sequer o sentimento inquietante de que o mundo continua em movimento, mesmo quando a mortalha celeste cai sob Arouca.

Em boa verdade . . .

– os homens do vale, no entanto, sempre procuraram enganar o seu inverno. E em Arouca, lá bem em baixo, no fundo do vale, há quem invente novas ordens para a paisagem, assim como há quem sofra com a solidão que desce com o Inverno. Um fim de traço pode trazer consigo a percepção da vida ou da morte, mas nenhuns desenhos conseguirão dar o sentido a quem não sabe que caminho seguir, ou em que casa ou estação entrar.

Em boa verdade . . .

– em Arouca, lá bem em baixo, no fundo do vale, pode ver-se, de vez em quando, uma abelha perdida por entre brancos prédios e jardins esventrados, ou entre encostas áridas e florestas ardidas, até mesmo entre praças históricas adulteradas e bancadas de estádio viradas ao avesso. As suas asas não brilham; e pode, até, duvidar-se se estará viva ou morta. Mas quando os dedos se aproximam para a agarrar, ela debate-se, parece fugir, e limita-se a cair para o chão.

Em boa verdade . . .

– no Inverno de Arouca, lá em baixo, no fundo do vale, pouco mais resta a uma abelha do que morrer. E quem vê, numa mão humana, a ilusão de que a primavera já se aproxima. Interroga-se depois: «É isto arquitectura? Vem isto de um gabinete repleto de tipos pós-modernistas ou de alguma reunião de câmara cheia de políticos experimentalistas? Colmeia de que nada, vazio, angústia de nunca ter sido?»      

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