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Um paradoxo com efeitos desastrosos governa aquilo que ainda resta da sociedade do trabalho: há cada vez menos trabalho, mas quem o tem está submetido a ele em excesso. Calcula-se que um trabalhador no século XXI trabalha mais tempo por ano do que um operário do século XIX (não esqueçamos que o ciclo das estações e dos dias e das noites determinava então, muito mais do que hoje, os horários de trabalho). Uma discussão séria sobre as vantagens de distribuir por mais pessoas a totalidade de trabalho existente (cabendo a cada pessoa um volume menor de trabalho do que aquele que se tornou o padrão actual) permanece encerrada em círculos académicos e nenhum político ousa trazê-la para o espaço público. E também nunca se notou que aqueles que têm trabalho estejam dispostos a começar a interrogar este regime. Continua-se a raciocinar nestes termos: a menos horas de trabalho corresponderá um salário menor, logo, nem pensar nisso. Parece que ninguém aceita que o princípio de que “tempo é dinheiro”, popularizado por Benjamin Franklin, deveria determinar o objectivo de ganhar tempo ao tempo perdido do trabalho. Há hoje muita gente (mesmo em lugares onde se presume que existem todos os instrumentos para resistir à “alienação”, por exemplo a Universidade) que aceita fazer trabalho não remunerado porque ficou dependente de uma lógica da expectativa e da promessa que governa a economia e o mundo social. E há os que estão de tal modo presos a um pensamento convencional e naturalizado do tempo de trabalho e do tempo livre, que nem se dão conta de que estão a pagar uma parte substancial do trabalho que fazem.

Há uma equação fundamental entre o tempo e o dinheiro que pouca gente se preocupa em resolver. Já se viu algum sindicato reivindicar o direito de os trabalhadores terem mais tempo por menos dinheiro? E, no entanto, há quem tivesse muito a ganhar com essa maneira de resolver a equação. Este regime absurdo que faz com que o trabalho só conheça dois regimes extremos, o do excesso e o da falta, afecta todos os assalariados. E na medida em que a alta burguesia já não vive, como outrora, de rendimentos, mas de um salário (ainda que seja um salário extremamente elevado, um sobressalário), também ela nunca tem tempo. O que é que caracteriza verdadeiramente um presidente ou administrador de uma empresa? É alguém que não tem tempo porque o seu tempo é tão caro que ele o vende todo a preço de ouro (de resto, o seu tempo só tem um valor tão elevado porque é uma totalidade sem divisões). No final, tem sempre muito dinheiro, mas nenhum tempo. Daí a pergunta ociosa que fazem todos os cidadãos curiosos, quase sempre sem tempo nem dinheiro: o que é que fulano X, por exemplo o presidente de um banco estatal, faz com o seu sobre-salário colossal (um palavra que tanto serviu a Kant para a análise de umas das modalidades de sublime como a um antigo ministro das Finanças para medir o aumento dos impostos), se não tem tempo para o gastar? É certo que ele pode, com a rapidez de um clic, gastar uma fortuna. Mas para gozá-la precisa de tempo. A equação é difícil de resolver, tanto do lado dos que só não têm tempo como do lado dos que não têm tempo nem dinheiro. Uns e outros são igualmente pobres em relação aos que detêm o privilégio não de um sobre-salário, mas do sobretempo. Não são os desempregados os detentores do sobretempo, já que esses ocupam todo o seu tempo à procura de emprego. São os membros de classes já desaparecidas. Se hoje não é concebível que apareça um novo Proust, é porque os escritores já não têm tempo para gastar nem para o procurar. 

in “Público” a 23 de Dezembro

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