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francisco

Os resultados obtidos pelos alunos portugueses nos testes internacionais PISA 2015 provocaram grande excitação nos media. Originaram conclusões instantâneas: “nós que  éramos tão fraquinhos,  afinal somos muito bons”; “afinal, os nossos professores, as nossas escolas, os nossos ministros são fabulosos”; “é o rigor, os exames, os rankings que permitem esta sabedoria aos nossos alunos”; e por aí fora…

No fundo, cada um procurou puxar a si os méritos da boa notícia. Foi particularmente delicioso o olhar à direita, que de pessimista inveterado, sobre os méritos da educação moderna, virou optimista convicto. Nos registos, mais simplistas ou mais elaborados, há claramente um antes e um depois PISA 2015. A título de exemplo cito dois. Em 2013, Camilo Lourenço, em livro que higienicamente me abstenho de citar, escrevia uma coisa do género – toda a gente sabe que a educação em Portugal não é grande coisa. Em 12-12-2016, no jornal on-line Observador, Alexandre Homem Cristo titulava um texto sobre os resultados do PISA 2015: “Os alunos aprenderam, os políticos não”.

Perante tal entusiasmo e fugindo ao ofuscar de visão que as personagens Maria de Lurdes Rodrigues e o Nuno Crato provocam, talvez fosse bom olhar mais em detalhe para o PISA, concretamente: o que é?, quem o promove?, o que avalia?, qual a evolução dos resultados portugueses?, estará Portugal integrado nos méritos e deméritos da educação hodierna?, e, por último, os resultados do PISA permitem concluir que Atena e Minerva  se instalaram de vez na Escola?

É isto que me proponho fazer, não com a profundidade de um académico, porque não o sou, mas a partir da experiência e da reflexão que dela faço, enquanto professor de uma escola do 2º CEB, nas fraldas da serra da Freita, em Arouca.

O que é o PISA?

Segundo o Relatório do PISA 2015, publicado na página do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE),  www.iave.pt, o PISA (Programme for Internacional Student Assessment) é um programa internacional que “avalia se os alunos de 15 anos, entre o 7º e o 12º ano de escolaridade, de todas as modalidades de educação e formação, conseguem mobilizar os seus conhecimentos e competências de leitura, matemática ou ciências na resolução de situações relacionadas com o dia a dia das sociedades contemporâneas.”

No mesmo relatório é referido que se iniciou no ano 2000, tem uma periodicidade trienal, avaliando, em cada edição, os três domínios acima referidos, sendo que cada edição elege um como domínio principal, em 2000 e 2009 a leitura, em 2003 e 2012 a matemática e em 2006 e 2015 as ciências. O estudo de 2015 abrangeu 72 países e economias e nele participaram 18.000 escolas, 95.000 professores, 500.000 alunos, 7.325 dos quais portugueses.

Estamos, pois, perante um estudo internacional comparativo, que avalia e classifica a capacidade de aplicação dos conhecimentos e competências na resolução de problemas do quotidiano, isto é, o saber em acção, no dia a dia das sociedades actuais, se quisermos, uma perspectiva de avaliação “funcionalista” do Saber.

Quem o promove?

Trata-se de um programa desenvolvido pela OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, fundada em 30 de Setembro de 1961, e que integra, actualmente 34 estados-membros – Austria, Luxemburgo, Bélgica, Noruega, Dinamarca, Holanda, França, Portugal, Grécia, Reino Unido, Islândia, Suécia, Irlanda, Suíça, Itália, Turquia, Alemanha, Espanha, Estados Unidos da América, Canadá, Japão, Finlândia, Nova Zelândia, México, República Checa, Hungria, Polónia, Coreia do Sul, Eslováquia, Chile, Eslovénia, Israel e Estónia.

Atendendo ao facto dos estados-membros, em conjunto, serem responsáveis por mais de metade da riqueza criada no mundo, esta organização é, também, considerada como o grupo dos ricos. É constituída por economias emergentes e por economias desenvolvidas, com elevados PIB per capita e Índice de Desenvolvimento Humano.

Tem como objectivos promover, nos seus estados-membros, o crescimento económico sustentado, a estabilidade financeira, o crescimento do emprego, a expansão económica e o crescimento do comércio mundial.

Tratando-se de uma organização económica, promotora da economia de mercado, que integra os maiores países capitalistas do mundo, está por isso dependente das suas concepções e práticas.

Para ensaiar uma conclusão, em vez do perigoso barbudo do manifesto de 1848, vou recorrer a Joseph Schumpeter, um dos mentores do ascenso da econometria, hoje dominante na análise social. O notável rival de Keynes, em 1911, logo a abrir a sua Teoria do Desenvolvimento Económico, chamava a atenção para o seguinte – “O processo social é um fenómeno indivisível. Do seu grande fluxo, a mão organizadora do investigador extrai artificialmente os factos económicos”. Portanto, entendamo-nos, a OCDE olha a Educação, avalia a Educação, mede a Educação de acordo com os seus arquétipos e conceitos, neoliberais para utilizar o jargão em uso.

O que avalia?

Segundo o Relatório PISA 2015, em cada um dos três domínios, pretendia-se avaliar o seguinte:

LITERACIA EM LEITURA –  “capacidade de um indivíduo compreender, utilizar, refletir e se envolver na leitura de textos escritos, com a finalidade de atingir os seus objectivos, de desenvolver os seus conhecimentos e o seu potencial e de participar na sociedade.” Como hoje se diz, as palavras-chave, na taxonomia do objectivo, são localizar, interpretar e avaliar.

LITERACIA EM MATEMÁTICA – “capacidade de um indivíduo formular, aplicar e interpretar a matemática em contextos diversos e formular juízos e decisões fundamentadamente, como cidadão participativo, empenhado e reflexivo”. As palavras-chave, na taxonomia do objectivo, são explicar, analisar e interpretar.

LITERACIA EM CIÊNCIAS –  “capacidade do indivíduo para se envolver em questões sobre a ciência e compreender as ideias científicas, como um cidadão reflexivo, sendo capaz de participar num discurso racional sobre ciência e tecnologia.” Palavras-chave, neste caso, são formular, aplicar e interpretar.

Em suma, conforme já foi referido mais atrás, em cada um dos domínios estamos a falar de um processo iminentemente “funcionalista” de avaliação, quantificação e classificação de capacidades de mobilização de saberes e competências.

Qual a evolução dos resultados portugueses?

O melhor resumo sobre a evolução dos resultados dos portugueses no PISA encontramo-lo logo no prefácio do Relatório PISA 2015.

“No que concerne aos resultados, Portugal tem tido um percurso muito positivo. Ao longo das seis edições do estudo, em todos os domínios, a tendência de evolução global dos resultados mostra-nos uma subida gradual, que também se reflete na melhoria da posição nacional no contexto dos países participantes e em relação ao resultado médio da OCDE. É de salientar que, pela primeira vez, o resultado nacional nos três domínios está acima da média da OCDE: oito pontos em Ciências, cinco pontos em Leitura e dois pontos em Matemática (diferença não significativa). Portugal integra um lote muito restrito de países da OCDE que evidenciaram uma progressão positiva, bastante expressiva, ao longo das seis edições do estudo.”

Se quisermos olhar mais em detalhe e de acordo com o gráfico apresentado na página 9 do Relatório PISA 2015 constatamos que:

– a tendência da média da OCDE está em estagnação / ligeira queda, desde 2000 até 2015, apesar de se ter mantido sempre acima dos 490 pontos, o seu registo mais baixo é precisamente 490 pontos em Matemática em 2015;

– a tendência geral  de Portugal é de subida, desde 2000 a 2015, com períodos de subida significativa entre 2000/2003, 2006/2009, 2012/2015, estagnação ou ligeira quebra entre 2003/2006 e 2009/2012”;

– Portugal iniciou este processo bastante abaixo da média da OCDE, com 454 pontos (matemática), 459 pontos (ciências) e 470 pontos (leitura) e ficou acima da média em 2015, com 492 pontos matemática, 498 a leitura e 501 a ciências.

– desde 2009 que os resultados de Portugal estão próximos da média da OCDE, em 2009 e 2012 abaixo e em 2015, conforme já foi referido, acima da média. Já nessa altura se verificava que Portugal estava próximo, nalguns casos acima, de países mais ricos e que muitas vezes eram tomados como modelo;

Em 2015, no universo dos 72 países do programa, Portugal, em literacia científica ficou  na 17ª posição, à frente de países como a Noruega, a França, os EUA, a Suécia e a Espanha, em literacia em leitura na 18ª posição, à frente de países como a Grã-Bretanha, os EUA, a Espanha e a Rússia, em literacia matemática na posição 22ª e à frente de países como a Itália, os EUA e a Espanha.

O progresso de Portugal foi significativo e constante, apesar de tantos governos e governantes e de tanta conversa em torno de filhos de Rousseau, de eduquês, de área-escola, de área-projecto, de escola a tempo inteiro, de competências essenciais, de competências específicas,  de competências não, capacidades é que  sim, de disciplinas estruturantes, de exames, de rigor… de infindáveis discussões de conceitos.

O que se pode concluir é que o país (governantes, serviços do ministério da educação, escolas e professores)  focou-se nesta forma de abordagem do saber escolar e neste tipo de avaliação e adaptou  programas, modelos de avaliação, formas de trabalhar e o resultado foi este.

Em suma, triunfou o pragmatismo popular: se é isto que conta é se é assim que se mede o sucesso, então, AMEN. Como diz o povo, se o burro quer palha, dê-se palha ao burro.

Estará Portugal integrado nos méritos e deméritos da educação hodierna?

Sendo esta a Educação OCDE, a Educação deste tempo, estará Portugal enquadrado com este universo? Se considerarmos o PISA, particularmente as três últimas edições, a conclusão é fácil, Portugal não só está enquadrado, como está até bastante bem posicionado.

Se considerarmos que este universo é o grupo dos ricos, então, tendo em conta que vivemos numa sociedade capitalista, isto é, uma sociedade de concentração de capital, seja ele de que natureza for, concluímos também que Portugal está perfeitamente enquadrado neste tempo.

Sendo assim, regressando à frase de J. Schumpeter, de que os fenómenos sociais são indivisíveis, então concluímos que se Portugal, com as suas especificidades, acompanha o grupo dos ricos nos seus méritos educativos, então também os acompanhará nos deméritos educativos.

Os resultados do PISA permitem concluir que Atena e Minerva se instalaram de vez  na Escola?

Aqui é que a coisa começa a complicar. É que uma Educação Escolar “funcionalista”, centrada apenas na utilidade da mesma na vida quotidiana, não é a Educação de Atena e de Minerva, as deusas da sabedoria, que eram das artes, das letras e da guerra.

A Educação PISA é uma forma de olhar a Educação, pode ser uma forma de a trabalhar, um meio, mas não pode ser o fim da Educação. A Educação Escolar tem que ir muito mais além, porque tem a obrigação de combater a reprodução social, de mitigar as desigualdades no acesso ao Saber, de “puxar pelos de baixo”.

Uma Educação PISA é redutora, e conjugada com um modelo económico de acumulação de capital vigente, vai acentuar o fenómeno de acumulação de desigualdades, a um lado uns com acesso aos conhecimentos, estudando em certas escolas e recebendo muito Saber fora da escola, outros com acesso apenas a competências, circunscritos a uma escola apenas fornecedora de ferramentas para o quotidiano, ao qual pouco Saber conseguem acrescentar extra escola.

Por isso à justa conclusão de que Portugal fez progressos notáveis na Educação PISA, de que os nossos alunos, nos primeiros quinze anos do terceiro milénio, melhoram na capacidade de mobilizar conhecimentos e competências em leitura, matemática e ciências em situações quotidianas, contraponho que, no que à Educação de Atena e Minerva diz respeito, o “Saber de banda larga”, as coisas não serão tão brilhantes.

Deixo à consideração de quem se der ao trabalho de ler esta prosa, três dúvidas e uma constatação empírica, sobre quatro áreas do Saber: humanidades, sensibilidade estética, trabalhos manuais e educação física.

Não estará a valorização da matemática e das ciências, o ascenso da econometria educativa, o elevado número de alunos por turma e por professor, a contribuir para a desvalorização das humanidades, a limitar o acesso dos alunos à construção de textos, ao desenvolvimento da argumentação, às complexidades do pensamento humano? 

Estará a sensibilidade estética dos nossos alunos melhor, com uma Escola que para ir ao encontro dos gostos e das motivações das diversas dimensões da cultura pop dominante deixou de valorizar tudo o que não seja instantaneamente agradável e espectacular?

Estarão os alunos de hoje melhor habilitados no trabalho manual, tendo em conta o progressivo desaparecimento deste na vida quotidiana, mais gritante ainda em meio rural, e a sua supressão em contexto escolar, por via da eliminação dos espaços, disciplinas e áreas curriculares onde eram trabalhados?

Constata-se hoje uma diferença maior, do que no início do milénio, ao nível do desempenho motor, entre os alunos com acesso a oferta desportiva fora da escola e os alunos sem oferta desportiva extra-escolar. Se no caso dos primeiros o nível de desempenho motor terá até melhorado significativamente, no caso dos segundos a tendência é precisamente oposta.

E é para estes que importa olhar. Nestes alunos são evidentes as limitações de desenvolvimento das habilidades motoras como correr, saltar, trepar, etc., praticamente banidas do contexto formal e informal da infância. E o que vem da Escola também não ajuda, pelo contrário: o tempo semanal de educação física não aumenta, a oferta das AEC não é dignificada, o desporto escolar é um simulacro de sistema desportivo. Até a arquitetura das novas escolas ajuda, o edificado cresce e o recreio minga, o estético impõe-se ao funcional. Sinais dos tempos! 

Quanto ao PISA, recordemos o Régio – “não sei por onde vou, só sei que não vou por aí”.

 

Arouca, 5 de Janeiro de 2017

Francisco Gonçalves

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