Etiquetas

, ,

Se uma raça extraterrestre invadisse a Terra e criasse um novo sistema económico, ainda assim o novo líder com seis olhos iria contratar alguém do Goldman Sachs.

Durão Barroso, serviu a empresa enquanto político e agora é admninistrador in Lisbon from November 7 to 10. / AFP PHOTO / PATRICIA DE MELO MOREIRA

Durão Barroso, serviu a empresa enquanto político e agora é admninistrador. Lisbon from November 7 to 10. / AFP PHOTO / PATRICIA DE MELO MOREIRA

Goldman Sachs. O próprio nome faz lembrar o baloiçar de um iate em Biarritz e tem o sabor de um marmoreado bife Wagyu. Soa a dinheiro a ser transferido, investido, triplicado e de novo transferido, de forma a evitar impostos , e o rebentar de bolhas e as quedas de bolsas. A sua sede, na West Street da Lower Manhattan, Nova Iorque, cheira a riqueza, desde a copa refinadamente equipada no 11.º andar até à pintura de 550 metros quadrados encomendada para o átrio de entrada no rés-do-chão, pelo preço de cinco milhões de dólares. 

Goldman Sachs. Outra vez o Goldman Sachs! Sempre o Goldman Sachs. Se uma raça extraterrestre invadisse a Terra e criasse um sistema económico baseado em quasares e matéria negra, ainda assim o nosso novo líder com seis olhos iria contratar alguém do Goldman Sachs.

O banco de investimento forneceu a George W. Bush um dos seus secretários do Tesouro, e antes disso um outro a Bill Clinton. Foi o maior contribuinte privado para a campanha eleitoral de Barack Obama em 2008. Ao longo de 2016 Donald Trump criticou asperamente Hillary Clinton por esta ter proferido palestras privadas, e bem pagas, no Goldman Sachs, e pronunciava o seu nome como se fosse a encarnação do mal. O Goldman Sachs “controla completamente” Clinton, repetiu ele uma e outra vez.

E o que sucedeu? Trump foi buscar o seu secretário do Tesouro ao Goldman. O principal conselheiro de Trump é um ex-quadro do Goldman. E já divulgou oficialmente a sua escolha para director do Conselho Económico Nacional: um dos líderes do Goldman Sachs, Gary Cohn. O caso mais recente é o do regulador do mercado de capitais, a SEC: a escolha de Trump recaiu sobre Walter J. Clayton, um advogado de negócios ligado a Wall Street e sócio da Sullivan & Cromwell, sociedade de advogados que trabalha de perto com a Goldman Sachs.

Em que pé é que ficamos? Como é que esta conservadora firma de investimento afinal aparece sempre na Casa Branca, como se fosse um penetra de smoking?

Raízes profundas em Washington

A mística do Goldman foi sendo construída e aperfeiçoada ao longo de 147 anos, desde o dia em que um imigrante alemão chamado Marcus Goldman abandonou o ramo da alfaiataria e passou a negociar dívidas, através de pequenos papéis que colocava por baixo do seu chapéu alto de seda. O primeiro escritório situava-se a um quarteirão de distância de Wall Street, numa cave, junto a um depósito de carvão. 

Agora é um gigante cotado em bolsa com raízes profundas firmemente instaladas em Washington e ramos que se espalham pelas economias de todo o planeta [Recentemente, contratou o ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, para o cargo de presidente não-executivo do Goldman Sachs International].

“Temos gente do Goldman Sachs em todos os principais mercados”, afirma Cohn numa entrevista para um podcast gravado logo após o anúncio da sua ida para Washington. “Sabe como é, olhamos para o volume do nosso capital, olhamos para o nosso balanço, olhamos para o número dos nossos colaboradores  – é algo simplesmente gigantesco.”

A omnipresença do Goldman inspira preocupação e ansiedade, tanto nas autoridades reguladoras como nos defensores das teorias da conspiração. E torna fácil imaginar o tipo de sistema fraudulento e corrupto contra o qual tanto Bernie Sanders como Donald Trump verberaram durante a campanha eleitoral. 

“No próximo ano, quatro dos doze presidentes nos bancos regionais da Reserva Federal serão antigos executivos de uma mesma empresa: Goldman Sachs”, escreveu Sanders num tweet de 2015. 

Rede de platina

Há muito que o Goldman é um dos alvos preferidos dos humoristas – mais exactamente desde a década de 1930, quando a estrela de teatro de variedades Eddie Cantor (que perdera uma fortuna num esquema especulativo do Goldman no início da Grande Depressão) integrou o banco no seu reportório.

 “Eles disseram-me para comprar acções para assegurar a minha velhice, e funcionou na perfeição – passados seis meses sentia-me um velho”, brincava Cantor em palco, de acordo com The Partnership, o livro de Charles D. Ellis que relata a história do Goldman.

Passamos para 2008, quando o Goldman ganhou muito dinheiro no colapso económico através de venda de acções a descoberto. A companhia foi acusada de fraude em 2010.

 “Quando se enfrenta uma calamidade financeira como a que sentimos [em 2008] , o simbolismo e os símbolos tornam-se muito importantes – e o Goldman é a pedra-de-toque cultural da ganância e da avareza”, afirma William D. Cohan, antigo banqueiro de Wall Street e autor do livro Money and Power: How Goldman Sachs Came to Rule the World.   

Mensagens de correio electrónico internas do Goldman tornadas públicas em 2012 sugerem que os seus corretores se referiam aos investidores ingénuos como “marretas” [muppets], um termo pouco abonatório de calão britânico. O site humorístico Funny or Die retaliou com um sketch em que três furiosos marretas, do género que aparecem na “Rua Sésamo”, irrompem numa reunião de executivos conspiradores do Goldman.

 “É verdade que os aconselhamos a fazer coisas que os prejudicam, de maneira a ficarmos mais ricos, mas será que isso faz de nós os maus da fita?”, pergunta o actor Kyle MacLachlan, que interpreta um executivo de fato às riscas. “Sim!”, responde um dos marretas.

Mas a má reputação de que o banco desfruta entre em geral é suplantada pelo respeito que impõe nos meandros do poder. “É por isso que Trump está a chamar pessoas da Goldman”, diz Cohan. “Porque é muito fácil exibir imediatamente uma respeitabilidade financeira quando se relaciona com o universo do Goldman.”

A rede de contactos de platina. Pessoas ricas que ajudam pessoas poderosas a ficarem ricas, e pessoas poderosas que ajudam pessoas ricas a ficarem poderosas. Tudo isto deriva de uma cultura de trabalho extenuante e exclusividade opressiva, a que os principiantes na empresa são expostos assim que entram pela porta.

 “Os candidatos que não demonstrem uma imensa ambição, um compromisso total e gosto pelo trabalho em equipa são rapidamente afastados”, escreveu Lisa Endlich, antiga corretora do Goldman, no seu livro Goldman Sachs: The Culture of Success.

Tudo – individualismo, ego, sentimentos – está subordinado à empresa. “Quem diz ‘eu’ está à procura de problemas”, contou um sócio sénior a Endlich. Mas, por outro lado, também cita um ex-vice-presidente a afirmar: “A firma é especial, e tu também és especial, se não fosses não estarias aqui.”

A lenda do Goldman Sachs é tal que os blogues de negócios e finanças revolvem obsessivamente acerca do como é trabalhar lá. Estar bronzeado significa que não se está a trabalhar o suficiente… Apenas os sócios podem usar mocassins da Ferragamo… As mulheres são pressionadas a evitarem maquilhagem e a manterem o cabelo apanhado atrás da cabeça. 

“Os sócios estavam sempre a observar, para verem se um estagiário apresentava os sinais de ser um ‘continuador da cultura’, o termo usado na Goldman para referir alguém que é capaz de lidar com os colegas e os clientes de forma a preservar a reputação da firma – a reputação que a tornou a incubadora de senadores, secretários do Tesouro e governadores de bancos centrais”, escreveu Greg Smith, ex-director-executivo, no livro Why I Left Goldman Sachs: A Wall Street Story.

A razão pela qual Trump está a atafulhar a sua Casa Branca com o Goldman Sachs é porque se trata de uma tradição. E quem iniciou essa tradição?

Um escriturário de 1,62 metros de altura chamado Sidney Weinberg, que em 1909 arrastou pelo Metropolitano da cidade de Nova Iorque um pau de bandeira com 2,5 metros de comprimento. 

Weinberg – que mais tarde se autodescreveria como “um miúdo estúpido de Brooklyn, sem qualquer educação” – transportou o pau de bandeira desde Wall Street até à Rua 138, mais exactamente até à casa de Paul Sachs, um sócio da empresa que queria o pau de bandeira ali colocado. Enquanto o esforçado escriturário hasteava a bandeira dos Estados Unidos, Sachs disse-lhe que devia ir estudar à noite, e assim talvez subir na carreira, até estafeta ou algo ainda mais sonante.

Weinberg, um homem muito dado e excelente na obtenção e gestão de contactos, rapidamente escalou a hierarquia da Goldman e tornou-se amigo de Franklin D. Roosevelt, então governador do estado de Nova Iorque. Quando o seu compincha se mudou para a Casa Branca, Weinberg ajudou a fundar o Business Advisory Council, um organismo de lobby para ajudar executivos a se relacionarem e influenciarem os legisladores da capital. 

Na qualidade de sócio do Goldman, Weinberg ajudou a desenvolver as indústrias privadas destinadas ao esforço militar da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Angariou verbas para a campanha eleitoral de Dwight Eisenhower e depois escolheu o seu secretário do Tesouro – cimentando a ideia de que o nosso governo tem muito a aprender e a ganhar com os magnatas das finanças.

 “Quem conhece o negócio melhor do que ninguém é quem trabalha por dentro do negócio.” Quem disse isto foi Hillary Clinton, cerca de 60 anos mais tarde, na sede do Goldman Sachs em Nova Iorque, onde assegurou aos pesos-pesados financeiros a manutenção desta relação especial, num daqueles seus discursos tão bem pagos e que mais tarde lhe causariam tantos dissabores.

O Goldman em fusões (RCA e General Electric). O Goldman nas aquisições (um dos maiores produtores de grãos de café do Mundo). Por volta de 1900, o Goldman importava e exportava ouro da Europa e de África. Na década de 1950, colocou em bolsa a Ford Motor Company. Mais recentemente investiu na Spotify e na Uber.

Actualmente, alguns dos “graduados” do Goldman estão:

Ao comando da Reserva Federal de Nova Iorque  (o director William Dudley)

Nos estúdios da CNN (o apresentador Erin Burnett)

Casados com antigos e futuros candidatos presidenciais (Heidi Cruz)

À frente dos destinos de países (o primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull).

Nos últimos anos, a empresa expandiu as suas actividades de solidariedade, de forma a reabilitar a sua imagem, e é considerada por alguns especialistas como uma das firmas de Wall Street com mais princípios éticos. O Goldman orgulha-se do elevado número de executivos de topo que tem enviado para Washington.

 “Ao longo dos seus 147 anos de existência, o Goldman Sachs tem encorajado os seus empregados a retribuírem à comunidade onde estão inseridos, seja quando estão aqui a trabalhar ou depois de se terem ido embora”, declara Jake Siewert, o director de comunicação da empresa – e, já agora, ex-assessor de topo das Administrações Clinton e Obama. “Orgulhamo-nos de muitos terem ido servir os seus países e as suas comunidades após terem saído daqui.”

Linha directa

Olhemos agora para além da Casa Branca: após todos estes anos, o Business Advisory Council ainda existe, se bem que com um nome ligeiramente diferente, num escritório num sétimo andar de um prédio da Pennsylvania Avenue. O actual presidente executivo do Goldman, Lloyd Blankfein, é membro do Council, tal como acontece com outros nomes sonantes da indústria e das finanças – incluindo o director-executivo da ExxonMobil, Rex Tillerson, a escolha de Trump para secretário de Estado. (O presidente do conselho, que está de saída, é Jeffrey P. Bezos, fundador da Amazon e proprietário do jornal The Washington Post.)

No seu primeiro ano na presidência, Barack Obama convidou os membros do conselho para o East Room [salão de festas e recepções na Casa Branca]. No início de 2017, o conselho vai reunir-se, em Washington, para, pelo menos, duas reuniões à porta fechada com legisladores. O presidente Donald J. Trump está à cabeça da lista de convidados.

Apesar de preferir Hillary Clinton, Blankfein está optimista em relação a Trump. “Ele é um tipo muito esperto, um homem de negócios”, declarou recentemente Blankfein ao jornal alemão Handelsbatt. Se as suas políticas “contemplarem mais estímulos, os nossos resultados acompanharão as melhorias que irão acontecer”.

A partir do próximo ano, Steven Mnuchin, antigo colega de Blankfein no Goldman, irá estar à frente dos destinos do Tesouro norte-americano. O número dois de Blankfein, Cohn, irá ser conselheiro económico de Trump. E assim, mais uma vez, a rede do Goldman irá ser útil.

 “Se pensarmos bem, para quem é que [o director-executivo da Apple] Tim Cook vai ligar nesta Administração se tiver algum problema? Creio que a sua primeira escolha seria o Gary Cohn”, diz um antigo funcionário do Tesouro que conhece bem o estilo de liderança de Cohn (e que pediu para ser citado sob anonimato, dado que não está autorizado a falar sobre o assunto). “Quem mais nessa equipa [de Trump] nos poderia dizer: ‘Como é que o Banco do Japão vai reagir a algum anúncio que façamos?’ Nesta altura do campeonato, acho que ele é o único nome que realmente interessa nesta cidade.”   

Na realidade, em ambas as cidades. Nova Iorque e Washington. Desde o dia da eleição presidencial, as acções do Goldman Sachs subiram mais de 30%. Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Advertisements