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«Posso contratar metade da classe trabalhadora para matar a outra metade». Século e meio depois do magnata nova-iorquino Jay Gould sintetizar assim a sua a fórmula para suprimir as greves dos trabalhadores ferroviários, a velha máxima recobra fôlego em Trump, ainda que abreviada, à guisa de tweet, para «Primeiro a América».

A primeira semana da nova administração, pródiga em desenvolvimentos rápidos como as «semanas em que décadas acontecem», como escreveu Lénine, inaugurou, não uma ruptura com as anteriores administrações, mas o aprofundamento e a aceleração do rumo traçado. É na esteira de Clinton, Bush e Obama que Trump anuncia o desmantelamento das funções sociais dos estados e do governo federal: Obama fez da saúde um negócio mais lucrativo para as seguradoras e mais dispendioso para os trabalhadores; ao retirar a famigerada lei do Afordable Care Act, também conhecida como Obamacare, Trump vem acelerar o processo. Após o peremptório e conveniente falhanço do Obamacare, será mais fácil impor à saúde as leis do mercado e da selva, deixando 20 milhões de estado-unidenses sem acesso à saúde. Se dúvidas sobre esta matéria restarem, recorde-se, por exemplo, os cortes orçamentais decretados por Obama ao Medicare e ao Medicaid, os programas de saúde para idosos e pobres, respectivamente. Trump já avisou que vai desmantelar o que sobra. Continuidade e aceleração presidiram e guiaram igualmente as ordens executivas que, esta segunda-feira, proibiram todas as agências federais de contratar novos funcionários, os cortes no programa de saúde sexual e reprodutiva Planned Parenthood, de que depende a saúde de cinco milhões de pessoas, principalmente mulheres, a deportação de milhões de imigrantes, a construção de muros ou a ameaça de novas guerras…

Há, contudo, neste processo de incremento quantitativo, um potencial de transformação qualitativa que não deve ser subestimado. A sociedade estado-unidense exibe mais e perigosos sintomas de fascização que, não sendo novos, tornam-se rotineiros. Normalizam-se. Esta gangrena começa a afectar algumas centrais sindicais entusiasmadas com as medidas proteccionistas de Trump e alheias às consequências de «reduzir em 75 por cento a regulação económica». Os relatos de violência contra negros, mulheres, imigrantes, e pessoas LGBT multiplicam-se com crescente impunidade. Convenientemente, os únicos sectores públicos que, segundo Trump, não sofrerão cortes são o aparelho de repressão do Estado e as forças armadas.

Continuidade e aceleração

Neste cenário pouco animador, merecem destaque as enormes manifestações em defesa dos direitos das mulheres, da democracia e contra o racismo que fizeram estremecer o país. Mais de três milhões de pessoas em 500 cidades disseram «não» a Trump e a escala do protesto rompeu os moldes em que o Partido Democrata (PD) o queria confinar: os oradores não se ouviam, as celebridades de Hollywood não se distinguiam, as organizações de George Soros foram eclipsadas e até as ordens da polícia se tornaram impraticáveis. O abraço da serpente com que o PD quer cooptar a oposição a Trump enfrenta a mesma dificuldade que Clinton durante a campanha eleitoral: a maioria do povo estado-unidense não acredita que Clinton seja melhor que Trump.

Se é verdade que de pouco servem elucubrações sobre como seria uma eventual administração Clinton, é utilíssimo observar a estranha «oposição» que os democratas fazem a Trump. Foi com os votos dos senadores democratas, entre os quais Bernie Sanders e Elizabeth Warren, que Trump nomeou James Mattis, mais conhecido por «cão raivoso», para chefe do Pentágono. Trata-se do criminoso de guerra que reduziu Faluja, no Iraque, a escombros e que se jactava de não ter ficado a pensar mais do que 30 segundos na decisão de, em 2004, bombardear uma festa de casamento naquele país, matando 42 homens, mulheres e crianças. Foi, do mesmo modo, com os votos favoráveis dos senadores democratas, entre os quais novamente Bernie Sanders, que Trump entregou o Departamento de Segurança Interna a John Kelly, antigo responsável pela prisão de Guantánamo, e apoiante fervoroso do muro de Trump, entre outras façanhas semelhantes. Os democratas aprovaram também o nome de Mike Pompeo para director da CIA. Militante do Tea Party e dirigente da extrema-direita no Kansas, Pompeo é um defensor da legalização da tortura e da espionagem massiva da NSA.

A benevolência do PD para com Trump não demonstra só a ideia de aceleração e continuidade, prova que, mais alto do que quaisquer personalidades, estilos ou partidos falam sempre os interesses de classe. Clinton e Trump pertencem e representam a mesma e neste momento é mais forte o que os une do que aquilo que os separa. E se um dia os trabalhadores estado-unidenses também aprendessem isto? Continuariam a ser contratados para matar a sua outra metade ou apontariam as armas noutra direcção?

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