O fenómeno acima identificado deu à costa com a apresentação do documento “O perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória”, o qual está, neste momento, em discussão pública. Neste documento, encomendado pelo governo do PS a um grupo de trabalho coordenado por Guilherme de Oliveira Martins, sente-se a ideologia OCDE e o dedo de pedagogos próximos da direita. Não é tanto o documento em si que importa, tão singelo é, mas as ideias que o enformam e o que dele foi dito.

Numa leitura simplista da história das ideias da educação, nos últimos cem anos degladiaram-se, à esquerda, na teoria e na prática, a pedagogia do austero revolucionário com a do alegre progressista, se quisermos, a do “soviético” com a do neo-marxista, com particular ascendente do último nas décadas mais recentes. À direita perpetuou-se, rijamente, a pedagogia do rústico mestre-escola, em versão lusa, o “ler, escrever e contar” e derivados. Aqui e acolá, nalguns círculos próximos, surgia alguma coisa de Pedagogia do Projecto, mas não era o dominante. Agora, porém, surgiu coisa nova, não de nicho mas de massas.

Confesso que sorri – depois da estopada de romantismo pechisbeque, na versão “Clube dos Poetas Mortos”, que gramei em certas “Pedagógicas” da formação de professor, que as leituras e vinte anos de quotidiano  docente foram removendo -, quando dei conta que o velho mestre-escola estava a ser substituído pelo pedagogo inovador, colaborativo, cheio de projectos e focado nas criancinhas.

Segundo esta pedagogia do século XXI, as aulas nas escolas portuguesas são expositivas quando estes tempos pedem aulas interactivas. Não sei a fonte de tal constatação. O que me é dado ver é que, nas escolas portuguesas, convivem aulas expositivas e aulas interactivas. Existem aulas expositivas porque há professores que só assim se sentem confortáveis no controle da turma em sala de aula, a dimensão das turmas e a indisciplina dos alunos (em algumas turmas) a isso obriga, os recursos materiais disponíveis não possibilitam tal. E há muitas, muitas mesmo, aulas interactivas. Esta tese afigura-se mais do domínio da construção da realidade do que da constatação empírica.

Um segundo exemplo, relativo ao problema do insucesso escolar. No passado os alunos do insucesso não iam ou abandonavam a escola. Nos últimos anos foram remetidos para Cursos de Educação e Formação ou Cursos Vocacionais. Agora vão ter projectos. Mas que projectos? Projectos assentes no currículo comum, que prevejam a redução da dimensão das turmas, o reforço dos apoios educativos, a intervenção a montante da escola? Não! Em vez disso uma coisa bué inovadora, que amputa parte do currículo, insere conteúdos escolhidos a gosto pelas autarquias, tudo assessorado por fundações e centros universitários já posicionados no terreno e financiado pela União Europeia.

A direita ser elitista é normal! A direita ser Chestertoniana só revela bom gosto! Agora isto! Será só interesse nos dinheiros dos fundos europeus? Será para ensaiar uma síntese entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato? A direita virou fofinha?

São estes os filhos de Rosado Fernandes? Os de Rousseau não desmereciam o pai!!!

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in “Discurso directo” a 24 de Fevereiro

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