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Na semana passada, Assunção Cristas, líder do CDS, foi ao Presidente da República fazer queixas «do Parlamento» (onde tem havido «uma opressão» contra a oposição), depois, confrontada com o envolvimento de Paulo Núncio, ex-secretário de Estado do CDS e do governo do PaF, no desaparecimento de dez mil milhões de euros em paraísos fiscais sem averiguação e registo nas Finanças, Cristas considerou que esta notícia tinha sido «plantada» no Público (inferindo, decerto, que o Público também praticava «opressão») e, finalmente, ao esbarrar na confissão de Paulo Núncio de que tinha a «responsabilidade política» do caso, Cristas decidiu que «Paulo Núncio mostrou uma grande elevação de carácter».

Este Núncio de «grande elevação de carácter» foi quem começou por responsabilizar os serviços da Autoridade Tributária pelo «lapso» dos dez mil milhões de euros, evoluindo depois para a admissão da sua «responsabilidade política», quando o inspector-geral das Finanças o confrontou com a apresentação formal, feita pelo próprio e por três vezes, da proposta de análise e registo das verbas dos dez mil milhões e que, por três vezes, o Núncio recusou.

De resto, a «grande elevação de carácter» de Núncio já se havia exibido aquando da agora esquecida «lista VIP», uma lista que elencava um conjunto de «personalidades» a cujos dados fiscais os serviços tributários não podiam aceder, havendo elementos castigados por o terem feito. Núncio garantiu a pés juntos não existir tal «lista VIP» nem perseguições a funcionários, para depois admitir que a lista existia, demonstrando uma tal «elevação de carácter», que nem admoestado foi – quanto mais demitido… – pela tutela ministerial – Maria Luís Albuquerque, agora tão calada – ou o governo PaF.

Quem igualmente possui «elevação de carácter» a rodos é Passos Coelho, líder do PSD, que, ao saber do caso dos dez mil milhões de euros, se apressou a a «supor» que «pode ter havido irregularidade da Autoridade Tributária ao analisar movimentos de transferências bancárias (…) para paraísos fiscais», acrescentando que «o que há a fazer é avaliar e investigar», estando o seu partido nisso «interessado».

E nem uma palavra sobre o confisco do governo PaF a tudo o que mexia, desde que fosse trabalhador e/ou de poucos recursos, nos mesmos anos em que este regabofe de fuga clandestina de capitais para paraísos fiscais se processava, sob «responsabilidade política» do Núncio da elevação de carácter e a direcção política do então primeiro-ministro Passos Coelho, agora «interessado» em «avaliar e investigar», numa mal enjorcada fuga para a frente.

A desvergonha anda à solta. Apreciemos o que esta gente vai inventar na Assembleia da República esta semana, para fugir às responsabilidades.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2257, 2.03.2017

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