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Porque neste país parece não haver coisa mais relevante nem mais absorvente para a comunidade mediática do que o respeito pelo défice às ordens de Bruxelas, é inevitável que figuras de um vampírico filme de Polanski, como uma tal Teodora Cardoso, presidente de uma cafua designada «Conselho das Finanças Públicas», ascendam ao estrelato dos sentenciadores sem os quais não existe opinião consolidada. Muito mais consolidada, como sabemos, do que as contas públicas, esmiuçadas até às centésimas de cêntimo pela sapiência de Teodora, beneficiada pelo privilégio das intimidades com o divino.

«Milagre», proclamou Teodora, quando não lhe restou outra saída do que admitir a realidade dos 2,1% do défice do Estado português em 2016, que superam até as imposições ditatoriais da Comissão Europeia, BCE e FMI, juntos e ao vivo para continuarem a esganar os cidadãos portugueses com a austeridade.

É altura de recordar que nada impunha ao Governo de Portugal enveredar por esta guerra do défice, por esta gesta até às milésimas que custa milhares de milhões à economia portuguesa e, sobretudo, aos cidadãos. Nem mesmo as ordens iníquas de Bruxelas, às quais a equipa do Dr. António Costa decidiu acomodar-se com um esmero que a leva a comportar-se de modo mais papista que o papa, na abstrusa esteira, nesta matéria, da sua antecessora de miserável memória.

Não é que os tratados que pariram a ditadura do euro em que vivemos estabelecem 3% de défice no âmbito dos tais critérios de convergência? Então para quê espremer o País até aos 2,1% (e aos 1,6% no ano que já aí está), confinando o investimento público a zero, amarrando a economia portuguesa contra a corrente, numa altura em que ela dá provas de querer voar muito mais até do que as suas atordoadas parceiras de infeliz união? É um preço muito alto a pagar pelos portugueses para desmentir as profecias tremebundas de Juncker, Dragui, Lagarde e, por arrastamento, dos seus agentes domésticos tendo a mirífica Teodora como um dos ícones.

«Milagre», sentenciou Teodora, depois de várias semanas a garantir que a meta governamental apenas seria atingível «por uma questão de fé». Um comportamento que assenta como um tailleur Chanel numa hiena em alguém que tem como tarefa lidar com o rigor dos números e com as inevitabilidades da aritmética numa engrenagem que influencia o devir de milhões de pessoas.

Sabemos que, por esta altura, vapores do sobrenatural pairam sobre a Pátria, adensados por efemérides centenárias, os quais permitem até desconfiar que seja Teodora uma quarta, e sobrevivente, pastorinha vidente de azinheiras.

Porém, não competiria ao Governo dar prioridade ao que as sentenças de Teodora representam, isto é às ordens descabidas de uma troupe internacional que vegeta na arbitrariedade e no nonsense, que entregou a democracia aos instrumentos trituradores da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional.

«Milagre», anunciou Teodora. Ao que acrescentou ser ele apenas possível não pelos méritos dietéticos orçamentais dos Drs. Costa e Centeno, mas sim porque a Comissão Europeia, a certa altura do campeonato, decidiu ameaçar Portugal com sanções. Então, se «milagre» houve – e houve-o, segundo Teodora – ele deve-se à Comissão, por certo a rogo do BCE, a mão genuína do deus único e verdadeiro, o euro.

Acresce que a miraculosa epopeia do défice vive-se a par dos tristes episódios à volta da salubridade do sistema financeiro europeu e português, o tal mundo onde os cidadãos são obrigados a esvaziar os bolsos para tapar os rombos escancarados por servidores do mesmo deus, os banqueiros, devido a actividades que, quando praticadas pelos comuns dos mortais, são conhecidas por um lote infindável de sinónimos: roubo, desvio, desfalque, assalto, extorsão, fananço, gamanço, mão baixa, sumiço, mão leve, limpeza…

Sabe-se, sabia-se e está sabiamente provado – honra aos jornalistas que ainda existem – que o Dr. Carlos Costa, o regulador, sabia dessas actividades banqueiras, regulando-as pois com as suas bênçãos. E o País sabia de tudo, desde os mais altos dirigentes da Nação, a montante, ao mais desmunido dos cidadãos, a jusante.

Porém, o Dr. Carlos Costa permanece intocável a governar o Banco de Portugal, à revelia de Portugal inteiro, país supostamente soberano com 900 anos de História. O Governo não o pode demitir, o chefe do Estado não o pode despachar, o Ministério Público não o pode processar, a polícia não o pode prender.

Porque o Dr. Carlos Costa, o governador, o regulador, apenas responde perante o Banco Central Europeu, cara-a-cara com os senhores Dragui e Constâncio, que não são nem italiano nem português, mas sim eminências do euro, por isso membros da confraria mundial dos banqueiros – tal como o Dr. Carlos Costa.

«Milagre», repetirá Teodora.

E, assim sendo, nesta Europa e neste mundo, não há quem possa negar-lhe razão.

in “AbrilAbril” a 9 de Março

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