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Na memória do movimento operário a Comuna de Paris ocupa um lugar muito querido e destacado: porque foi a primeira vez na História que a classe operária com os seus aliados conquistou o poder; pela audácia e heroísmo dos seus obreiros; porque concretizou a experiência inédita de um governo do povo e para o povo.

No contexto da guerra franco-prussiana e perante a traição do governo burguês de Thiers que assediado pela revolta popular se transferiu para Versalhes abandonando Paris à sua sorte, os trabalhadores parisienses erguem-se em 18 de Março de 1871 numa poderosa insurreição, organizam a defesa da cidade frente ao previsível assalto das forças contra-revolucionárias e ao cerco das tropas prussianas, expulsam a burguesia do aparelho de Estado e elegem a Comuna. No seu curto tempo de existência (72 dias) a Comuna tomou importantes medidas no plano laboral e social (como a suspensão do pagamento das dívidas ou a melhoria das condições de trabalho), e medidas estruturantes de um poder político novo, profundamente democrático e popular, como a substituição do exército permanente pelo armamento geral do povo, a separação da Igreja do Estado, a reabertura e gestão pelos seus trabalhadores das oficinas abandonadas pelo patronato, a remuneração do governo e de todos os funcionários da administração pelo salário médio do operário e outras decisões que evidenciam a natureza de classe da Comuna.

A base social de apoio da Comuna foi muito grande. Verificou-se uma verdadeira explosão de criatividade popular e a criação por iniciativa das massas das mais variadas formas de associação. Verdadeiramente admirável foi a contribuição heróica das mulheres celebrizada na figura de Louise Michel. Mas a acção conjugada do cerco militar alemão e do exército de Thiers, tirando também partido de hesitações e insuficiências da Comuna (como não ter avançado sobre os «versalheses» antes que se reagrupassem, não colocar o Banco de França ao serviço da Comuna, subestimar a aliança com os camponeses) acabou por vencer. A 21 de Maio o exército avança sobre Paris e, apesar da heróica resistência dos «comunards» que durante uma semana resistiram rua a rua até aos derradeiros combates no cemitério de Pére-Lachaise, a Comuna acabou afogada em sangue, numa das mais cruéis manifestações de ódio e vingança de classe que a História regista.

Uma causa imortal

A Comuna foi derrotada mas a força do seu exemplo e dos seus ideais perdurará para sempre. Dessa audaciosa tentativa de «assalto aos céus», Marx, em «A Guerra Civil em França» e Lénine em «O Estado e a Revolução» retiraram ensinamentos que constituem um precioso desenvolvimento do marxismo nomeadamente quanto à teoria da revolução proletária, ao papel do partido de vanguarda e, em particular, quanto ao Estado como a «questão central de cada revolução» (título de uma importante obra do camarada Álvaro Cunhal), à sua natureza de classe e à tese segundo a qual para o triunfo de uma revolução não basta conquistar o poder do Estado, é necessário destruí-lo e substituí-lo. Foi o que, enriquecidos com a experiência da Comuna, fizeram os bolcheviques na Revolução de Outubro. Foi o que em Portugal a nossa Revolução de Abril não conseguiu fazer, o que constituiu uma das suas maiores limitações.

A Comuna de Paris constitui um valioso exemplo de como é sempre possível fazer progredir o pensamento revolucionário a partir das lições, tanto das vitórias como das derrotas da luta emancipadora. Foi o que desde o primeiro momento fez Marx que, tendo considerado não estarem ainda reunidas as condições para uma revolução proletária, uma vez criada a Comuna a apoiou com o entusiasmo de quem acredita no papel criador das massas em movimento e no triunfo da revolução, triunfo que finalmente veio a acontecer na velha Rússia quando aí se reuniram as condições que faltaram aos «comunards», nomeadamente quanto à necessidade do partido de vanguarda que, apesar da sua forte componente marxista e do papel que teve na Comuna, a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) ainda não era.

A repercussão da Comuna em Portugal foi muito grande embora influenciada pela corrente anarquista que no caso português inicialmente se sobrepôs à corrente marxista dominante na AIT. O exemplo de consciência de classe e de abnegação dos revolucionários franceses e a demonstração da possibilidade de arrebatar o poder à burguesia deram um importante impulso ao movimento operário português e à difusão do marxismo em Portugal. Datam de então as primeiras associações exclusivamente operárias que em 1872 deram origem à Fraternidade Operária e à sua adesão à AIT.

Passou século e meio sobre a Comuna, mas os seus ensinamentos mantém plena actualidade. Como escreveu Lénine no artigo «À memória da Comuna de Paris» publicado por ocasião do 40.º aniversário deste histórico acontecimento, «a Comuna não morreu, ela continua viva em cada um de nós». «A causa da Comuna é a causa da revolução social, é a causa da total emancipação política e económica dos trabalhadores, é a causa do proletariado mundial. E neste sentido é imortal».

 

in “Avante” a 16 de Março

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