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As aldeias e florestas que sofreram com os incêndios ficam entregues à sua própria sorte. Manuel, Carlos, entre outros perderam casas, animais, produções agrícolas. Esta terça-feira, o Conselho de Ministros aprova um conjunto de medidas para a reforma da floresta.

António Óscar – Membro da Associação URTIARDA

No relatório do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas sobre os incêndios de 2016, o que começou em Janarde e afectou o concelho de Arouca, a 8 de Agosto, surge como um gigante. O fogo incontrolável que por ali andou, varrendo encostas e vales, ameaçando aldeias, queimando casas, animais, pastos e florestas, consumiu 21.910 hectares. Para que se perceba a sua dimensão, compare-se com o segundo incêndio mais devastador do país: foi em Covas/Vila Nova de Cerveira, a 7 de Agosto e consumiu 8852 hectares. Ou pense-se nas imagens terríveis da Madeira a ser consumida pelo fogo e atente-se que ali as chamas consumiram 1666 hectares. Segundo os dados da GNR, no ano passado, o total da área ardida em Portugal ultrapassou os 161 mil hectares, mais 93 mil do que no ano anterior. O número torna 2016 o pior ano da última década, no volume de área perdida para as chamas. Se os números dizem pouco, pegue-se no carro para ir ver o concelho que tem a peculiaridade de pertencer à Área Metropolitana do Porto, apesar de ser distrito de Aveiro.

Talvez uma pessoa se sinta esperançada pelo verde que vai despontando entre o negro da terra queimada. Os eucaliptos, sobretudo, já começaram a crescer de novo e o que nasce no terreno ardido parece ainda mais viçoso, pelo contraste com o negro de fundo. Mas basta parar em qualquer povoação que se encontre pelo caminho para perceber uma certa desesperança de quem sabe que, mais cedo ou mais tarde, a tragédia vai voltar. A descrença de quem está cansado de ver planos governamentais falharem. E a persistência de quem sabe que não vai partir, que aquela é a sua terra e que, por isso, há que deitar mãos à obra. Outra vez.

E há também a revolta, que se sente nas palavras de cada um dos homens e mulheres que o P2 ouviu. Todos eles perderam algo. Todos têm agora que decidir o que vale a pena refazer, depois de o fogo, o calor, os directos televisivos e as visitas dos responsáveis políticos terem terminado. Ninguém fala em ser indemnizado pelas perdas: a menos que seja declarado o estado de calamidade, não há apoios ou é demasiado complicado tentar aceder a uma verba que nunca pagaria o que se perdeu. Ouve-se Manuel, Joaquim ou Carlos e o diagnóstico fica feito. Campos abandonados; poucas queimadas no Inverno; rebanhos tão pequenos que não desbastam, como antes faziam, o mato; falta de coordenação e de cruzamento de intervenção de quem devia proteger a floresta. Tudo razões para que cada um encolha os ombros na certeza de que, daqui a uns anos, o que aconteceu em Agosto de 2005 ou 2016 vai voltar a acontecer.

E nem o facto de a reforma da floresta estar, de novo, em cima da mesa, com 12 diplomas apresentados ao Conselho de Ministros a 27 de Outubro, lhes merece grande alento. Daquela dúzia de documentos, dois já entraram em vigor – um relativo a um projecto-piloto para o Parque Nacional da Peneda-Gerês e um outro que prevê, até 2018, o reequipamento das 44 equipas existentes de sapadores florestais e, até 2020, a criação de 20 novas equipas destas. Os outros dez documentos estiveram em discussão pública e deverão ser aprovados no Conselho de Ministros da próxima terça-feira. Entre estes, estão a criação do Banco de Terras público, as limitações à plantação do eucalipto, o alargamento de redes de videovigilância ou o aumento de áreas em que se praticam acções de prevenção, como os fogos controlados, durante o Inverno. Será desta? Ainda é muito cedo para acreditar. A memória do que se perdeu ainda está demasiado fresca. E as encostas negras em redor ainda são a realidade para que estas pessoas acordam todos os dias.

António Óscar, 54 anos

“As cinzas matam os peixes. Tempo para recuperar? Nem uma geração”

A terra e as árvores não sabem mentir. Quando são apanhadas pelo fogo, cobrem-se de negro-luto, que mostra ao longe o que lhes aconteceu. Mas e os rios? Quem pensa neles depois de o fogo passar? Em Arouca, pensam, pelo menos, os membros da Associação Urtiarda, que desde os anos 1990 tomam conta dos rios Urtigosa e Arda, afluentes do Douro.

O professor António Óscar, um dos fundadores da associação, aponta os depósitos de cinza negra que se acumulam no leito e nas margens do Urtigosa. “O leito via-se como um espelho e não tinha nada disto”, diz, apontando as terras negras. “Com a dimensão da área que ardeu e as chuvas que vieram, já sabíamos que as consequências iam ser estas. Se vier uma cheia, acaba por limpar, mas, entretanto, temos esta fase em que vem tudo por aí abaixo. Muito poucos peixes vão conseguir escapar.” Porque a face menos visível dos grandes incêndios é esta. O cheiro do que morre na água, o negro que cobre o que antes era transparente.

Carlos Alves, 37 anos

“Passei a noite a bombar água para cima dos mirtilos”

Carlos Alves – Produtor de Mirtilos

Do terreno de Carlos Alves, onde crescem os mirtilos que plantou há uns meses, a vista não é bonita. A encosta em frente está coberta de restos de árvores tornadas castanhas. O fogo de Agosto, que castigou Arouca, também passou por Fornelos, este lugar de Cinfães, na fronteira com aquele concelho, e rondou, ameaçador, a plantação de Carlos. “Nessa noite, do alto da serra, vi que havia cinco focos de incêndio. Metia medo, vê-lo a cavalgar os montes. Passou por três serras – Freita, Gralheira, Montemuro – e eu, ao aproximar-me daqui, ouvia guinchos. Pensei que era o fogo, as árvores a estalar. Só depois percebi que eram os javalis, as raposas e os coelhos a serem apanhados pelo incêndio”, conta.

Foi um pesadelo. A plantação de mirtilos, apoiada por fundos comunitários, estava no primeiro ano de vida. Carlos viu o fogo crescer, lá longe, e ir-se aproximando. De madrugada, estava aos pés do seu terreno. E ele também. “Já não dormi. Quando cheguei, os bombeiros já cá estavam, na estrada. Gastaram-se quase 20 mil litros de água. Eu furei o sistema de rega e na leira mais próxima da estrada fui deitando água para o ar. Passei a noite a bombar água para cima dos mirtilos. Não ganhei para o susto. Está aqui o meu sustento.”

O esforço compensou. De manhã, as chamas foram travadas. A plantação salvou-se. A ventania assustadora transportou réstias do fogo por cima do campo de Carlos, atirando-o para um terreno mais abaixo. “Ao nascer do dia, estava tudo controlado”, recorda. Ele ainda havia de passar mais uma noite em claro, a ajudar amigos de Arouca que, 24 horas depois dele, também tiveram de deitar mãos à água para evitar o pior. Agora, só a encosta queimada em frente ao seu terreno lhe lembra quão perto esteve de perder o investimento feito e de ser incapaz de cumprir a obrigatoriedade de manter o negócio pelo menos durante cinco anos. “Ainda não tinha, mas vou fazer um seguro”, garante.

Manuel Vinagre, 61 anos

“Acordar e ver estas encostas todas negras é uma dor de alma”

Manuel Vinagre – Apicultor

As colmeias ainda lá estão, coloridas e claras, no meio de árvores queimadas. Parece impossível que ali estivessem naquela noite em que o fogo devorou tudo em volta. Mas estavam. E a prova que estavam é que, ao contrário do que se podia pensar, nem todas se salvaram. Manuel Vinagre perdeu duas colmeias e as abelhas que lá estavam. As outras, vizinhas tão próximas, salvaram-se num daqueles caprichos que só o fogo conhece, tocando aqui e não ali. “As abelhas [das colmeias que se salvaram], como era de noite, não morreram, porque estavam lá dentro. Quanto mais calor estiver por fora, mais fresco é por dentro”, diz o homem que depois de 18 anos emigrado na Suíça regressou a Bordozedo, S. Pedro do Sul, para se dedicar à terra.

Vende mel, tem milho, oliveiras, videiras e azeite. Tudo “pequena agricultura”, com excepção do mel, que chega às duas toneladas. O fogo não lhe podia ser estranho. Quem vive por aqui, entre montes, conhece-o bem de mais. Em 2005, também em Agosto, já andara pelo seu terreno, pelos seus cortiços. Era o dia 4. Naquele dia ele também foi ali, tentar protegê-los. A família, de uma aldeia vizinha, afligiu-se porque, rápido como as labaredas, correu o boato de “que tinha ardido um homem que andava nas abelhas”. Não era verdade. Mas Manuel cansa-se. Cansa-se da repetição de algo que acha que podia ser evitado. “Este ano foi o maior incêndio. Se ardesse no Inverno [com queimadas], já não ardia no Verão. É preciso limpar, não deixar combustível no mato, e isto tem de começar com o Estado.” E cansa-se do que vê, diariamente, nos últimos meses, e continuará a ver, até que tudo se regenere. “Acordar e ver estas encostas todas negras é uma dor de alma.”

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retirado de “Público” a 19 de Março

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