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Assistimos por estes dias a mais uma gigantesca operação de marketing da União Europeia. Tendo como pano de fundo as comemorações dos 60 anos da assinatura do Tratado de Roma, não há nenhum meio de comunicação social que não seja utilizado para difundir os valores humanistas da União Europeia e o seu papel como bastião da democracia, da liberdade, da paz e do desenvolvimento. Em tempo de guerra não se limpam armas, já dizia a minha Tia Joaquina.

Porém, a realidade está aí, incómoda e dissonante. A história de Ibrahima Kaba merece ser aqui contada porque ela representa a expressão concreta das políticas da União Europeia. Ibrahima Kaba nasceu na Guiné Conacri. Cedo ficou órfão de pai, perdendo mais tarde a sua mãe, apanhada na epidemia do Ébola. Fugindo de um mais que certo futuro de miséria, decide com um amigo, tentar a sua sorte na Europa. Começa então uma longa e dolorosa epopeia que os leva a atravessar o Mali, a Nigéria e a Líbia. «Foram semanas de sofrimento» conta Ibrahima, «atravessámos o deserto numa pick-up, quando as pessoas caíam o motorista não parava. Muitas pessoas perderam a vida». Na Líbia, o seu companheiro de viagem é atingido num braço por uma bala. Chegados à costa do Mediterrâneo, conseguem, através de um passador, embarcar numa frágil embarcação. Dois dias depois atinge a costa de Itália onde perde o rasto do seu amigo e decide prosseguir caminho até Marselha onde chega finalmente, em Setembro de 2016, completando uma viagem de meses onde enfrentou a fome, a sede e a guerra.

Mas este não poderia ser um final feliz, nesta União Europeia, alegadamente tão democrática e tão solidária. Sem família ou sequer conhecidos, Ibrahima decide bater à porta da escola secundária Saint-Exupéry, onde a direcção, surpreendida com o seu nível de francês, decide integrá-lo numa turma especializada. A vida parecia começar finalmente a sorrir. Em Outubro, deposita o seu pedido de asilo. Novo inferno. O regulamento de Dublin da União Europeia determina que o pedido de asilo só pode ser feito no país onde o migrante entra na União Europeia, neste caso, em Itália. Este é aliás o factor que alimenta, como o PCP já denunciou por diversas vezes no Parlamento Europeu, as redes clandestinas e o tráfico de seres humanos, porque os refugiados não querem ficar meses ou anos à espera, fechados em campos de concentração em Itália ou na Grécia, arriscando-se a serem devolvidos à procedência. Na sequência do pedido de asilo, vem então a ordem de expulsão para Itália. Ibrahima é preso à saída do albergue onde reside e levado à força para o aeroporto onde se recusa embarcar, voltando à prisão onde permanece durante várias semanas.

Este episódio, para além de revelar acima de tudo a completa desumanidade da UE e dos seus regulamentos, expõe também o comportamento absolutamente vergonhoso da autarquia fascista de Marselha, hoje nas mãos da Frente Nacional de Marine Le Pen, que tudo fez para concretizar a expulsão. Mas prova mais uma vez que vale sempre a pena lutar. Com efeito, depois de um amplo movimento de solidariedade, Ibrahima acabou por ser libertado na semana passada. Porém, continua na condição de foragido de um centro de acolhimento de Itália, e ameaçado de expulsão, mantendo-se a luta pelo seu direito a ficar em França e aí depositar o seu pedido de asilo!

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