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253 mil milhões de euros: eis a dimensão do saldo da balança comercial alemã com o resto do mundo. Bem acima do saldo chinês (69 por cento do alemão) ou do japonês (59 por cento). O último número da Handelsblatt, uma revista de negócios alemã, fixa em 47 por cento do PIB o valor total das exportações de bens e serviços da Alemanha para o resto do mundo. Um peso relativo que supera largamente os 22 por cento da China, os 18 por cento do Japão ou os 13 por cento dos EUA. Um colossal montante de 1,21 biliões (milhões de milhões) de euros – o mais elevado de sempre – anunciado no início deste ano.

Os excedentes comerciais não beneficiaram os trabalhadores alemães, pressionados por baixos salários e por uma elevada carga fiscal (que contrasta com a suave taxação do capital). Os capitais resultantes do gigantesco superavit comercial foram exportados, reinvestidos no estrangeiro. Grande parte evaporou-se. Do subprime americano ao imobiliário em Espanha ou na Irlanda, entre outros destinos. Parte das perdas acumulou-se em bancos alemães, a resgatar com recursos públicos. Nos círculos do grande capital alemão os números recentes das exportações não geraram grande euforia, tendo mesmo sido recebidos com algum cepticismo. É que ao mesmo tempo que estes números eram divulgados, Peter Navarro, conselheiro de Trump para o comércio externo, acusava os alemães de «explorarem» os seus parceiros comerciais, enriquecendo graças ao euro (subvalorizado), à custa dos EUA e dos «parceiros europeus». O próprio Trump admitiu já a introdução de tarifas até 35 por cento sobre as importações de carros alemães. Ao mesmo tempo que se desenvolvem pressões para que a Alemanha reduza o seu superavit de 49 mil milhões de euros no comércio com os EUA – através da compra de material militar.

Retórica belicista

Sobre a complexa e intrincada teia de relações que marcam o capitalismo financeirizado global, as guerras comerciais são expressão do prolongamento da crise e da acentuação das rivalidades inter-imperialistas. Não única: sobra ainda a guerra propriamente dita.

No mesmo número da Handelsblatt, um outro artigo anuncia «uma nova era na defesa alemã». A retórica belicista é indisfarçável.
 
Ao fim de um quarto de século a reduzir os seus orçamentos militares, desde 2014 que a Alemanha encetou uma viragem pronunciada. Foram feitas novas encomendas de material de guerra, incluindo as fragatas que patrulham as grandes rotas comerciais globais (de que as exportações alemãs dependem). Soldados alemães reforçaram contingentes da NATO na Europa de Leste. O objectivo passa por atingir os dois por cento do PIB em despesas militares (os orçamentos da França e do Reino Unido andam já por aí), o que equivale a 30 mil milhões de dólares por ano de despesas adicionais. Os aviões de guerra alemães deverão ter mais horas de voo, a marinha de guerra passará a sair mais dos portos e o treino dos soldados será incrementado. São promessas assumidas e em concretização. Mesmo se isso exige um esforço para superar resistências que resultam de sentimentos pacifistas ainda muito presentes em largos sectores da população alemã.

in “Avante” a 4 de Maio

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