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Na passada segunda-feira o INE divulgou as estimativas rápidas de evolução do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre do corrente ano. De acordo com o INE o PIB cresceu em termos homólogos 2,8% e em cadeia 1,0%, enquanto no quarto trimestre de 2016 essas variações tinham sido respectivamente de 2,0% e 0,7%. Temos de recuar dez anos para encontrar um ritmo de crescimento homólogo trimestral idêntico e dezassete anos para encontrar um ritmo de crescimento superior.

Estas estimativas rápidas constituem a primeira indicação sintética sobre a forma como a nossa economia está a evoluir no início de 2017. No final do mês teremos, por parte do INE, informação mais detalhada sobre a evolução registada e só nessa altura serão conhecidos de forma quantificada os contributos do consumo privado, do consumo público, do investimento, das exportações e das importações para a evolução registada neste primeiro trimestre do ano, quer comparativamente com o primeiro trimestre de 2016 (variação homóloga), quer em relação ao trimestre anterior (variação em cadeia).

Da informação sintética agora divulgada é possível concluir que para a aceleração do crescimento económico no primeiro trimestre do ano, reflectida na variação homóloga, o maior contributo veio da procura externa líquida, dado que a diferença entre o crescimento real das exportações de bens e serviços e o crescimento real das importações de bens e serviços foi positiva neste trimestre, enquanto no trimestre anterior tinha sido negativa.

A procura interna, constituída pelo consumo privado, consumo público e investimento, manteve tal como no trimestre anterior um contributo positivo elevado, embora inferior ao do trimestre anterior. Diz-nos o INE ainda, que para esta evolução da procura interna contribuiu a desaceleração do consumo privado e a aceleração do investimento.

Depois de um quarto trimestre de 2016 em que o crescimento do PIB de 2%, em termos homólogos, foi suportado exclusivamente pelo crescimento da procura interna, que foi de 2,5%, e em especial do consumo privado e do investimento que cresceram respectivamente 3,1% e 2,6%, podemos afirmar que no primeiro trimestre de 2017 ao crescimento da procura interna que se manteve elevado, juntou-se o crescimento da procura externa líquida, que desta vez foi positivo.

A divulgação destes resultados que comprovam um crescimento da nossa economia no início do corrente ano de perto de 3%, comparativamente com o início de 2016, altura em que o actual governo tomou posse, caiu que nem uma bomba no seio da direita política nacional e reflectiu-se nas reacções dos dirigentes do PSD e do CDS, bem como nas opiniões dos seus encartados opinion makers, que dominam os mais variados órgãos de comunicação social, das televisões, às rádios, aos jornais, aos sítios de notícias e blogues.

Se nos dois primeiros trimestres de 2016 logo após posse deste governo, com o PIB em desaceleração, a direita foi lesta em atribuir essa evolução à mudança de governo e ao início da interrupção das políticas de austeridade prosseguidas pelo PSD/CDS entre 2011 e 2015, agora conhecidas as primeiras estimativas do primeiro trimestre de 2017, com o PIB a crescer, a mesma direita com toda a desfaçatez vem afirmar que estes bons resultados são o corolário das políticas por si implementadas nesse período negro da nossa história económica e social mais recente.

Para a direita e os seus agentes na comunicação social é fundamental desvalorizar os impactos extremamente positivos e até mesmo determinantes que tiveram, a reposição salarial na Administração Pública, o aumento ainda que insuficiente do salário mínimo nacional, o fim da sobretaxa do IRS para os escalões de rendimento mais baixos, o aumento das prestações sociais, o descongelamento das pensões ou a redução do IVA na restauração, para o crescimento económico agora registado, por via do aumento do consumo privado e do investimento.

Em contrapartida, sobrevalorizam o papel das nossas exportações de bens e serviços nos resultados obtidos e procuram capitalizar a seu favor a evolução extremamente favorável que o sector do turismo registou em 2016 e o seu contributo positivo para a nossa balança corrente, ignorando a importância nos resultados do sector do turismo da actividade turística desenvolvida por residentes e que melhorou graças ao aumento do rendimento disponível das famílias.

Os dados agora conhecidos, desmentindo todos aqueles que não se conformam com a derrota do governo anterior e da sua política, sendo importantes no seu conjunto, quer quando revelam o forte dinamismo actual da actividade turística e da sua importância nas nossas exportações de serviços, quer quando mostram a importância determinante do aumento do rendimento disponível das famílias no crescimento da procura interna, quer quando mostram o impacto positivo que um e outro têm sem dúvida no crescimento do investimento, têm de ser lidos com a máxima prudência.

Não podemos ignorar o forte contributo par estes resultados que advém de uma conjuntura internacional favorável (preço do petróleo baixo, desvalorização do euro, baixas taxas de juro, retoma do crescimento nos nossos principais mercados exportadores: Espanha, Alemanha, França) e de um contexto no mercado do turismo internacional que nos é favorável há vários meses, com forte instabilidade económica e social, quando não mesmo guerra, nos principais destinos turísticos nossos correntes.

Não deixando de valorizar os resultados obtidos neste primeiro trimestre do ano, não podemos ignorar que estes resultados surgem no seguimento de um longo período de recessão, estagnação e crescimentos trimestrais muito baixos, que facilitam o aparecimento conjuntural de um ou outro bom trimestre, já que mais não seja por efeito meramente estatístico.

Os resultados agora obtidos serão tanto ou mais valorizados quanto eles forem sustentáveis, e esse é sem dúvida o grande desafio que se coloca ao actual governo. Para tal é fundamental que a reposição de direitos e rendimentos dos trabalhadores, dos reformados e pensionistas prossiga e que sejam adoptadas medidas de política económica que apostem claramente no investimento público e no incentivo ao investimento privado, para que rapidamente o stock de investimento anual supere o seu desgaste, que respondam ao acréscimo da procura interna e à crescente substituição de importações com produção nacional e que incentivem o crescimento das nossas exportações, com especial destaque das exportações de elevado valor acrescentado nacional.

Se assim não for e dado o actual nível de destruição do nosso aparelho produtivo rapidamente a este ritmo de crescimento da procura interna seguir-se-á o desequilíbrio da nossa balança corrente e consequentemente a nossa economia entrará em nova período de abrandamento, estagnação e queda.

in “AbrilAbril” a 17 de Maio

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