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Os principais avençados dos donos do mundo que se diz plural e tolerante não conseguiram disfarçar a inquietação com o ambiente e os resultados das duas recentes cimeiras que os juntam anualmente, encontros que habitualmente não passam de agradáveis pretextos de convívio culminados com risonhas fotos de família logo postas a correr mundo para nos dizer tudo vai bem, os deuses estão felizes.

Desta feita parece que não foi assim. Pragmatismo, afiançam comentadores de turno, também elas e eles preocupados com as repercussões de tão agitadas relações de forças no seu próprio futuro. Não me parece que seja assim tão simples: a elasticidade pragmática é insuficiente para encaixar tanta desavença, por muito que depois se tenham dado passos adiante e atrás, como asseguram que fez a senhora Merkel enquanto degustava umas canecas de cerveja perante as câmeras, para consumo próprio e eleitoral.

A verdade é que as últimas cimeiras da NATO e do G7 – instâncias visíveis que agregam os senhores do mundo – não decorreram com a bonança do costume, terão sido «atípicas», comentam os mesmos que se escudam no «pragmatismo».

No fundo, andando à volta de si próprios para fugir ao que os dois encontros magnos confirmaram, agora no cume do Olimpo: o capitalismo na sua versão limite mergulhou numa crise grave. Não já a provocada por uma visível desarmonia pondo em causa a teoria periclitante que garante ciclos sucessivos de crescimento e recessão, mas sim a que decorre de contradições mais e mais insanáveis.

Contradições que não resultam, como tantas vezes pretende simplificar-se, de incompatibilidades de génios e de políticas entre os actores intervenientes, como se os choques tivessem surgido agora com os adventos de figuras voluntariosas, egocêntricas e seguindo linhas políticas oportunistas e sinuosas, como é o caso de Donald Trump e Emmanuel Macron; os quais tiveram primeiros embates antagónicos com o autoritarismo germânico de Merkel, um batendo de frente, outro adaptando-se – até ver.

Sabendo-se que quando se fala em Trump se lhe associam, automaticamente, a inglesa May e o nacionalista japonês Shintaro Abe. Canadá e Itália não passam de figurantes no cenário do G7, assegurando, porém, o seu peso em ouro na estratégia agressiva e expansionista da NATO.

Na cimeira da NATO a gravidade das altercações mediu-se em dólares. Os contribuintes dos Estados Unidos estão a ser prejudicados, queixou-se Donald Trump, o presidente que tem exércitos de invasão e ocupação nas sete partidas do mundo e cuja administração acaba de anunciar que perdeu o rasto a mil milhões de dólares de armamento enviado para o «novo» exército do Iraque, uma tacanha metáfora inútil para esconder que os destinos finais dos carregamentos foram o Isis/Estado Islâmico, os muitos heterónimos da al-Qaida e a indústria «moderada» do terrorismo dito islâmico.

Feitos estes todos eles parcelarmente sustentados pelos membros da NATO, sem que os respectivos povos sejam informados com verdade sobre a sua contribuição para guerras ilegais e criminosas como as da Líbia e da Síria, para não estender o rol completo.

Trump, como soberano da NATO tacitamente aceite pelos súbditos, exige que estes respeitem o compromisso, assumido em cimeira anterior, de contribuir para a instituição com dois por cento do PIB. Alega – o que é verdade – que só meia dúzia de parceiros cumprem a regra, advertindo desde já que que o dinheiro assim reunido não chegaria para fazer estas, outras guerras e mais vítimas humanas por atacado, mesmo que todos fizessem a sua parte.

Os contribuintes, norte-americanos e os outros, que se preparem. Portugal esbanja 1,4% do seu PIB com essas sangrentas actividades, mas sabe-se que houve anos recentes em que o donativo passou de 1,5%, por sinal quando os portugueses foram torturados pelas formas mais agudas de austeridade, durante o consulado de Passos & Portas.

A Alemanha, o ressuscitado gigante militar alemão, porém, não passa de 1,1%, uma das razões que terá levado o truculento Trump a descarregar azedume na veterana Merkel, dizendo-lhe que isto assim não pode continuar.

Foi no ringue do G7, contudo, que as coisas chegaram a vias de facto, não se coibindo o presidente norte-americano de agredir a chanceler com uma verdade de Monsieur de La Palisse: a Alemanha usa a União Europeia em proveito próprio ou, se quiserem, a UE existe para servir a Alemanha.

O ameno convívio estragou-se. Os acólitos mais ferrenhos do eixo franco-alemão tomaram as dores da atingida e o senhor Macron, novato mas muito prometedor nestas andanças, fez questão de apertar tanto a mão do agressor até os nós dos dedos de ambos ficarem brancos, como rezam os relatos dos cronistas. Admirável gesto político, consequente, cavalheiresco e corajoso! Explodiu nessa ocasião o mal-estar interno das cúpulas de gestão do capitalismo global, aqui em forma animosidade transatlântica.

A maior ou menor agressividade face à Rússia e os desencontros nas estratégias para lidar com a China; as diferenças de velocidade a que são destruídos e confiscados os direitos sociais e laborais das populações; as divergências na gestão da guerra ambiental e climática – apresentadas como resultados de um falso duelo entre agressores contumazes e supostos defensores do planeta; a guerra entre as estratégias comerciais multilaterais e as alternativas simplisticamente definidas como «proteccionismo»; o terrorismo e as contradições cada vez mais evidentes entre os interesses próprios e egoístas dos cúmplices que o manipulam; a repartição dos custos e das responsabilidades nas catástrofes humanitárias geradas pelas guerras impostas pela NATO e o G7; o sinistro jogo de alijamento das consequências da tragédia dos refugiados originados pelas guerras convencionais e climáticas – enfim, a lista é tão longa e pesada, a repercussão tão inevitável, mesmo para uma comunicação social domesticada, que são suficientes para incomodar até os tecnocratas a rogo do poder global, ainda que dispensados de ter consciência.

Treinados a gerir o unanimismo assegurado por um bolo tão gordo que chega para todos, vêem-se agora obrigados a tentar administrar um pluralismo contraditório de egoísmos de casta degenerando em populismos e nacionalismos que não estavam mortos, apenas muito mal enterrados.

Comentadores e analistas que observam estas situações como fenómenos conjunturais, caídos do nada ou gerados por uma infeliz associação de coincidências, acham que basta encontrar as causas na personalidade, no feitio, nas megalomanias dos frequentadores destes cenáculos.

Um erro gémeo daquele que não lhes permite deduzir que existem riscos palpáveis de uma confrontação militar generalizada e de amplas proporções. Trump, Macron, May, Abe, a eternização de Merkel, o Brexit, a ascensão dos autoritarismos com diversificadas facetas não são enganos da História mas sim pessoas e ocorrências correspondentes à persistência da «crise», isto é, uma encruzilhada em que a selvajaria neoliberal se confronta com um horizonte de esgotamento.

Proibida, pelo cariz da sua missão, de pronunciar o diagnóstico verdadeiro, Angela Merkel desabafa, em tom de vitimização, que agora a Europa tem que sobreviver sozinha. O lamento, porém, é rico de conteúdo: é uma confissão de que a União Europeia tem sido uma peça estratégica essencial para os interesses dominantes do capitalismo anglo-saxónico; é uma admissão de que a União Europeia é a alavanca do ressurgido germanismo económico, o problema que incomoda realmente os interesses específicos do complexo militar, industrial e tecnológico norte-americano – como Trump deixou claro nas cimeiras; é o reconhecimento implícito de que a «refundação» da União Europeia, para conseguir «sobreviver sozinha», terá de se fazer com o reforço do poder dos poderosos, alicerçado no famoso eixo-franco alemão e na progressão continuada da única economia que tira proveito da moeda única – a alemã.

E não, a União Europeia não terá «de sobreviver sozinha». Se porventura lhe faltarem muletas económicas importantes providenciadas por Washington, no caso de se erguerem barreiras a negócios e transacções até agora definidas como inerentes ao todo-poderoso «mercado livre», isso não acontecerá, por certo, na área militar e dos engenhos de morte.

A NATO não permitirá que a Europa seja obrigada a «viver sozinha», quanto mais não seja porque tem que se alimentar do exército de 500 milhões de cidadãos europeus. Trump disse: a Alemanha «é má» porque nos inunda de automóveis, gera um excedente comercial anual de 60 mil milhões de dólares com os Estados Unidos, «e isso tem que acabar»; mas Trump não disse que essa prática alemã é incompatível com a NATO.

Sobre o assunto, limitou-se a exigir que os europeus paguem o que devem à aliança, os tais dois por cento do PIB e ainda mais, porque o contributo estipulado não chega – subentendendo-se para as necessidades militares e estratégicas norte-americanas.

O capitalismo não está de boa saúde; mas tem o poder acrescido da força, da chantagem e da arbitrariedade para continuar a mandar.

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in”AbrilAbril” a 1 de Junho

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