Na semana passada criou onda na comunicação social (menos) e nas redes sociais (mais) a notícia de que o Ministério da Educação estava a pressionar Directores e, estes, por sua vez, professores para que todos os alunos passassem de ano. Em tom de alarme dizia-se: estão a passar alunos com cinco e seis negativas! Em abono da verdade diga-se desde já: não sendo mentira não é, contudo, novidade.

Vamos por partes. Primeiro há que descontar a febril narrativa direitista – a governação da Esquerda (leia-se do PS) na Educação é facilitista, ao contrário do rigor que nós imprimimos. Depois, não podemos deixar de considerar um certo delírio romântico-infantil (a experiência pedagógica de autonomia e flexibilidade curricular é, talvez, um bom exemplo) conjugado com a pusilanimidade na resolução de alguns dos problemas estruturantes da Escola (professorado em envelhecimento galopante, elevado número de alunos por turma e por professor e horários de trabalho docentes sobrecarregados de tarefas burocráticas) do Ministério da Educação do jovem Tiago Brandão Rodrigues, que se tivesse cognome talvez fosse: TT – Tiago, o Tíbio.

Quanto à matéria de fundo importa ter em conta que, desde David Justino, mais assim ou mais assado, há um efectivo desígnio, e os números comprovam-no, em baixar as taxas de retenção, o número de chumbos, para usar uma linguagem mais chã. Até aqui não há problema nenhum. A questão a ter em conta é o afastamento entre o conceito de aprovação e o de aprendizagem.

Vamos pôr as coisas em termos simples. Num sistema educativo de “só passa quem sabe”, as turmas são mais homogéneas, mas existe um considerável, e crescente, exército de repetentes, para o qual é preciso encontrar solução. Num sistema educativo de “não há reprovações” não existe o tal exército de repetentes, mas é preciso encontrar soluções para turmas de grande heterogeneidade, com os alunos em vários patamares de aprendizagem. O sistema português tem sido, até hoje, um sistema híbrido.

Desde o início do milénio a tendência parece ser a de evoluir para um sistema de “não há reprovações”. Pessoalmente tenho vindo a consolidar a ideia de que se trata de um erro estratégico, que vai custar caro ao país e aprofundar o carácter classista da Escola. Três grandes razões de fundo estão na base desta ideia.

Uma, prática – esta tendência está a ser consolidada num quadro de contenção/redução do orçamento da educação, quando era necessário um aumento dos recursos.

Outra, cultural – apesar de tudo, os últimos cinquenta anos, os que contam, para trás eram trevas, foi sendo construído e consolidado um sistema híbrido.

Uma última, filosófica – a Escola Pública não se pode permitir a baixar o nível das aprendizagens mínimas exigidas aos alunos porque estes, coitados, não chegam lá. A Escola Pública tem a obrigação ética de puxar pelos de baixo, foi para isso que foi criada.

Para rematar, porque a Escola Nova não merece maus tratos, nem é blá, blá, blá, o amor é lindo, blá, blá, blá, flores a desabrochar, blá, blá, blá, passarinhos a chilrear, blá, blá, blá…, deixo à consideração de quem perde tempo a ler estas prosas: “Uma Escola Nova na Bélgica”, obra maior de um novel pedagogo português, A. de Faria de Vasconcellos, datada de 1915, escrita em francês e traduzida em 2015 para português, pelo Professor Carlos Meireles-Coelho:

http://purl.pt/26930/1/1908222_PDF/1908222_PDF_24-C-R0150/1908222_0000_t24-C-R0150.pdf

 

in “Discurso Directo” a 14 de  Julho

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