Sorrindo às portas do Olimpo – Álvaro Couto

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Foto: EPA/PANAGIOTIS MOSCHANDREOU

Os deuses gregos derrotaram os humanos arouquenses? É a impura verdade. Deste jogo de futebol se fique sabendo que não existe pobreza de espírito. O que há é miséria sem espírito. O caso sendo universátil merece as tantas linhas. Pois o que importa não é o acontecimento mas a gente que há na não-derrota da vida.

Onze homens do F. C. Arouca desafiam outros tantos deuses do Olimp(iakos). Ali está o Vidigal que espreita por detrás da bandeira de Arouca. A bandeira de um pequeno povo. Foi ela que conduziu Gegé ao golo, que este humano abraço guarda para a História. Os deuses foram, logo a seguir, em busca do rosto da inevitável vitória, mas já em tempo suplementar e malfadadamente divino. Para a nossa história o que conta é o verdadeiro tempo do jogo humano, aquele que trouxe a heroica Arouca a primeiro plano, pois ele evoca uma discreta Atenas, sem espada e sem escudo. Por um prolongamento divino e malfadado, bem pode ela erguer a cabeça de Medusa, agora, em triunfo. Porém, no jogo que é jogo, a cabeça de Medusa andou em redor dos humanos jogadores do F. C. Arouca, enquanto o Olimp(iakos) esteve à beira do colapso.

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A arder – Henrique Custódio

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A tragédia dos incêndios em Portugal não expôs apenas as insuficiências existentes no nosso País no combate à catástrofe, nem evidenciou somente a coragem e a abnegação dos bombeiros e membros da protecção civil.

Mostrou também que a «solidariedade europeia» não vale um chavo, que a União Europeia, como espaço comunitário de entre-ajuda (como se diz nos seus tratados fundadores) nem fábula é porque não corresponde a nada, em facto.

Não será por acaso que, da UE, apenas a Espanha, a Itália e a França hajam respondido com ajuda efectiva de meios aéreos de combate a incêndios (a Rússia e Marrocos também responderam ao apelo do Governo português, mas são países de «fora da Europa»).

Nem será coincidência que estes países sejam «do Sul» tão resmoneado «pela Europa» dos ricos (a França, embora fundadora da UE com a Alemanha, não deixa de ter os mesmos problemas que os «do Sul», nomeadamente com a praga dos incêndios).

Assim, vimos o que é sempre de uso em capitalismo: quem manda na UE apenas cuida dos seus interesses próprios (e de classe, não o esquecer), ignorando implacavelmente as necessidades (e direitos) «dos outros».

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Assim não chegamos lá ? Mas quem disse que queremos lá chegar? – Álvaro Couto

“É com este tipo de textos que vocês não ganham em Arouca nem irão ganhar em sítio algum …. Vocês não são um partido político , são uma espécie que nem merece andar por cá. Ganhem vergonha” – André Teixeira

De vez em quando, aparecem uns conselheiros mandando-nos para (aos que perdem e não merecem andar por cá) uns recados com um assim não chegamos lá (devem estar a referir-se aos que passam a vida a ganhar pelo sítio deles). O que estes conselheiros não explicam são as regras deste jogo viciado, onde ganha quem tem sempre as cartas todas, inclusive as do paleio. Senão vejamos.

Geralmente, o Portugal de lá (o que ganha sempre) fá-las e o de( o que perde sempre e não merece sequer andar por cá) é que (em geral) as paga (talvez seja, por isso, que ainda nos deixam andar por cá). O pessoal de (porque nunca ganha) tem larguíssimas costas: as culpas dos males da sociedade são todas da sociedade, do sistema, do modelo económico, do Estado, do Governo, da Câmara (nunca do ministro Fulano ou do vereador Sicrano (dos que ganham em concreto), quando não dessas misteriosas entidades que é o Executivo ou a Assembleia, tudo seres pouco concretos que, quanto a generalidades do lado de (dos que ganham sempre), é o que se pode arranjar), ou ainda do regime, da democracia, da Constituição, da organização dos serviços, da burocracia e de outras abstracções por aí adiante, até ao fado, que é a forma mais portuguesa dos políticos (esse Portugal de lá, cheio de legitimidade, por que ganha sempre) arranjar desculpas sobre a sua própria política (ou pela falta dela) sem atirar as culpas para ninguém nem para coisa nenhuma.

A justiça não funciona? O juiz marcou uma dúzia de julgamentos para o mesmo dia e para a mesma hora, sabendo que os não pode realizar a todos ao mesmo tempo, e depois adiou-os a todos menos a um, mandando queixosos, réus, declarantes, testemunhas, para casa e ordenando novas citações, notificações, para outro dia e outro adiamento? A culpa não é do juiz e do Portugal de (daquele que, ganhando sempre, manda) é da organização dos tribunais e do sistema judiciário (o Portugal de que, perdendo sempre, nem merece cá estar).

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Guardas florestais partem para greve contra a extinção da carreira

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Os guardas florestais vão avançar com uma greve contra a extinção da carreira e em defesa da atribuição de suplementos remuneratórios relacionados com as condições específicas dos seu trabalho, disse hoje à Lusa fonte sindical.

Luís Pesca, da Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais, afirmou que a greve foi a forma de luta escolhida perante a recusa do Governo em aceitar as reivindicações dos guardas florestais, o que , segundo diz, «contrasta com as afanosas declarações em defesa da floresta e da prevenção dos incêndios florestais, quer do primeiro-ministro, quer de outros membros do governo, nos últimos dias».

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Os incêndios, a política de direita e o…petróleo verde. – Daniel Vaz de Carvalho

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Menos Estado, combate aos fogos inquinado por interesses privados, propriedade privada intocável, mesmo que a incúria represente perigo coletivo, liberalização da plantação de eucaliptos reforçada com medida do governo PSD-CDS em 2014, destruição da floresta autóctone.

Quanto à prevenção os governos procedem como a história daquele mendigo que de noite com frio dizia: amanhã compro uma manta. De manhã, passava-lhe o frio, gastava o dinheiro em aguardente – que também o aquecia…
Assim estão os governos, ausência de prevenção, incapacidade ao nível do desinteresse na mobilização de vigilância, atualmente muito facilitada quer com meios tradicionais quer com meios tecnológicos especiais como os drones ou outros.

Mas recorde-se, a propósito da política de direita a favor dos eucaliptais, um seu ex-ministro da indústria, administrador e ex-administrador com impressionante curriculo nesta área, consultor da CIP ou algo equivalente, o homem que a direita considera que mais sabe de indústria neste país o Sr. Mira Amaral, que disse, então ministro, que o eucalipto seria “o petróleo verde de Portugal”.

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Regresso à Barbárie ou nunca de lá saímos? – Francisco Gonçalves

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franciscoUma onda de atentados terroristas tem varrido a Europa. Emergem em todos nós sentimentos de compaixão pelas vítimas e seus familiares e inquietações, muitas inquietações, quanto ao futuro. A besta humana, que supostamente a civilização e a marcha da história deveriam ter removido, ou pelo menos adormecido, afinal anda por aí.

O terrorismo na Europa não é uma novidade, tampouco o designado terrorismo islâmico. O que é novo na Europa é a escala e a frequência dos atentados. Contudo, é bom não esquecer que, desde o início do milénio, o Afeganistão, o Iraque e, mais recentemente, a Síria têm disto semanalmente, e a morte de um inocente e a dor que provoca é igual em todo o lado.

Como se explica e se combate um fenómeno desta magnitude? As leituras que vão sendo feitas não têm ainda a profundidade necessária, porque a enxurrada mediática só confunde e porque parecem existir alguns elementos novos nestes atentados na Europa.

A leitura política, à direita, vê nas identidades e ideias religiosas islâmicas a origem do problema e a resposta (musculada q.b.) na afirmação da “nossa” identidade judaico-cristã, liberal-democrata e capitalista. À esquerda, vê-se um fenómeno com origem nas realidades concretas dos povos e populações marginais (ao) do sistema (agravadas com as intervenções militares no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia…) e que só pode ser superado pela paz e pela alteração das condições de vida dos marginalizados na Europa e no Mundo.  Continuar a ler

Portugal não precisa de inimigos – José Goulão

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É os momentos difíceis que se vêem os amigos, diz o povo na sua sabedoria tantas vezes invocada, poucas vezes respeitada e raramente seguida.

Momento difícil vive a República Portuguesa, atacada por fogos traiçoeiros cujas causas inspiradoras e os objectivos com eles perseguidos dificilmente serão do conhecimento público e virão a ser alvo de apuramento levado às últimas consequências, como é de tradição neste país quando se trata de assuntos delicados e trágicos. Especula-se sobre as percentagens possíveis de cada uma das fontes de incêndios, tecnocraticamente arrumadas; captura-se aqui ou ali um suspeito de fogo posto, normalmente «pirómano», «doente mental» ou «cidadão irresponsável», qualificações que cumprem bem as acomodações de consciências asseguradas pelo sempre bem-vindo bode expiatório. E quando não houver mais nada para arder por ora e outras desgraças servirem de pasto ao vampirismo da comunicação social, arrasados os bombeiros que vão sendo levados nos andores da caridadezinha, inventariam-se os milhões de prejuízos – a somar aos milhares de milhões para os banqueiros e outros tantos ou mais sugados por Bruxelas – e passamos adiante: para o ano haverá outra «época de incêndios», com anúncio prévio e medidas oficiais. É assim que tem sido; haja alguém que consiga romper o ciclo vicioso para o país e muito virtuoso para os verdadeiros incendiários.

Uma situação de «terrorismo», qualificou, e com toda a propriedade, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Não existe palavra com tanta actualidade e mais adequada ao que está a passar-se com os incêndios em Portugal, por muito que tal identificação seja omitida, vá lá saber-se porquê. No entanto, os dramas humanos e económicos do que vem acontecendo traduzem uma imensa tragédia que avança perante a impunidade absoluta – e provavelmente eterna – dos autênticos terroristas.

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O fogo foi-se, porém as perguntas ainda queimam . . . Álvaro Couto

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Enquanto Arouca ardia, onde estava o seu Comandante dos Bombeiros? Ou melhor que estava fazendo, no Algarve, o sr. José Manuel Carvalho Gonçalves? Ou melhor, porque um comandante de bombeiros se abandona assim, em férias no Sul, em plena época de incêndios no interior Norte?

Estas perguntas, sem dúvidas dramáticas, faço-as em nome do Ferrinho, do Barbosa, e de todos aqueles que, mangueiras na mão, passaram a última semana a salvar as suas casas, as suas árvores, os seus animais, inclusive as suas abelhas.

Que admirável resposta não teríamos, se logo, abrindo de rompante telejornais e em soluços, não tivéssemos o actual presidente da Câmara dizendo aos telespectadores portugueses e à ministra da Administração Interna:

– Aqui estou.

Afirmam alguns gestores surrealistas do AroucaParK que o sr. José Manuel Carvalho Gonçalves há-de voltar, numa manhã de nevoeiro. Entretanto, em Arouca, apareceram uns tipos de Lisboa e uns russos e marroquinos com aviões, a dizer que eram o sr. Neves e o sr. José Manuel Carvalho Gonçalves. Descoberta a fraude, foram recambiados aos locais de origem, enquanto Rossas rebentava em festa.

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A visão da CDU-Arouca para as Montanhas do Concelho

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“2. AS MONTANHAS

A serra da Freita domina pela dimensão, pela unidade que constitui e pelos valores que encerra. Mas outras alturas se impõem, desde os contrafortes do Montemuro aos arredondados do Arressaio. E sempre presentes os rios e ribeiros, a floresta e os matorrais, o pastoreio e as aldeias ancestrais. Aqui, os valores naturais são imensos e a sua importância, para o desenvolvimento do concelho, decisiva. É que não está em causa só a economia, mas também e muito uma paisagem extraordinária, uma forma muito própria de estar na vida, a luta contra o despovoamento e o equilíbrio de um território, que só será conseguido se a presença humana aí continuar a ser uma realidade.

A floresta, sobretudo nas encostas, tem uma importância decisiva para a economia rural e tem de ser entendida não só como o mealheiro a que se recorre quando necessário, mas como um recurso que deve ser explorado de forma racional e permanente. Só que enferma de debilidades e problemas que põem em causa esse objectivo e todo o equilíbrio natural.

A monocultura do eucalipto e do pinheiro, em povoamentos contínuos, extremes ou mistos, tornam-na vulnerável aos incêndios, propiciam a degradação dos solos, erradicam espécies tradicionais, põem em causa rios e ribeiros e contribuem decisivamente para a diminuição da diversidade vegetal e animal.

O planalto da Freita é invadido e agredido sem regras nem ordenamento e a sua degradação, em termos paisagísticos e de fauna e flora, é uma realidade que nos confrange.

Em todo este espaço pontuam aldeias onde vivem cada vez menos pessoas (3), importando afirmar e assumir que a paisagem serrana é fruto da natureza, mas também e muito resultado da actividade humana que sempre soube ser agente de um grande equilíbrio, equilíbrio esse que, nas últimas décadas, fruto de políticas erradas, foi criminosamente posto em causa. A sobrevivência das aldeias e o povoamento da serra são imperativos de ordem natural, cultural e económica.

Aqui, nestas montanhas, pastam vacas e cabras que têm de ser vistas como património animal de interesse local e nacional e que podem ser, cada vez mais, condição de sobrevivência do homem da serra, mas também de defesa e manutenção da paisagem como a conhecemos. O planalto da Freita e ouras alturas do concelho não passariam de imensos matagais se o pastoreio desaparecesse.

As riquezas geológicas, minerais, arqueológicas, paleontológicas e arquitectónicas são recursos que importa conhecer melhor, preservar e rentabilizar, devidamente enquadrados numa  política em que as visões científicas e preocupadas com a natureza e as pessoas sejam determinantes.

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Sobre fogos florestais – João Frazão

I – O PCP manifesta a sua solidariedade para com as populações atingidas pelos incêndios dos últimos dias, e o apreço pelo incansável trabalho que milhares de bombeiros e outros intervenientes realizam para minimizar os seus efeitos.

Milhares de hectares de floresta ardida, dezenas de anos de trabalho e investimento perdidos em poucos minutos, habitações, edifícios públicos, culturas agrícolas, gados, armazéns, e outras instalações agrícolas e industriais destruídas. Vidas humanas perdidas. Recorde-se que, no balanço da última década, os incêndios florestais deixaram no País um rasto de destruição expresso em mais de um milhão de hectares de área ardida.

II – O PCP há muito que vem alertando para as causas deste flagelo: desinvestimento, desordenamento, falta de limpeza das matas, escassez dos meios permanentes e dos meios especiais de combate aos fogos, mas aponta como causas mais determinantes a ausência de políticas de apoio ao desenvolvimento da agricultura, aos pequenos e médios agricultores e produtores florestais, o sistemático afrontamento das comunidades dos baldios, a destruição da agricultura familiar, a desertificação do interior incentivadas por falta de actividade produtiva com garantia de rendimento para os produtores, a eliminação de serviços públicos (em particular, escolas e serviços de saúde) e que se acentuaram no mandato do anterior Governo PSD/CDS, com a aprovação da chamada Lei da Eucaliptização, que levou ao aumento significativo das áreas de eucalipto plantadas, com a aprovação de uma nova lei dos baldios visando a sua expropriação aos povos, ou com o desvio de mais de 200 milhões de euros do PRODER para outras áreas.

O PCP reitera hoje o que vem afirmando há décadas.

O problema dos incêndios florestais só pode ser resolvido com uma efectiva política de ordenamento florestal, contrariando as extensas monoculturas, de limpeza da floresta, de plantação de novas áreas de floresta tradicional, combatendo a hegemonia do eucalipto – que passou a ser a espécie que ocupa mais área no País, à frente do pinheiro bravo e do sobreiro –, de abertura de caminhos rurais e aceiros, de valorização da agricultura e da pastorícia, de ocupação do espaço rural.

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A Culpa dos Incêndios é do Capitalismo – João Vilela

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Acostumado que estou a acusações de radicalismo e exageração – que me honram! -, às quais geralmente tenho de redarguir denunciando a superficialidade intelectual e sobretudo política dos meus adversários, colho da fama o proveito: a situação, que anualmente se repete, dos fogos que lavram de norte a sul do país tem como causa única e exclusiva não a má índole e súbita aparição de malfeitores incendiários (deixemos essa explicação justicialista para o Paulo Portas), não o surto psicótico  mais ou menos colectivo que desencadeia crises de piromania nas aldeias do país (reservemos essa explicação para os psicologistas de pacotilha), mas, prosaica embora radicalmente, o modo de produção dominante. Não encarar isto é, simplesmente, não querer resolver o problema.

É por vivermos sob capitalismo e por haver uma divisão internacional do trabalho que liquidou o tecido agrícola português que a população se amontoa hoje em cidades atulhadas, deixando ao abandono extensas áreas das regiões do interior. É por haver essa divisão internacional do trabalho que temos intermináveis eucaliptais da Portucel, que secam os solos à volta e criam barris de pólvora nos meses de Verão (perante o silêncio de toda a gente). É por existir modo de produção capitalista que as terras deixadas ao abandono nessas zonas rurais, cujos proprietários nem sabem que são deles muitas das vezes ou, quando sabem, não podem ou não querem trabalhá-las, que vigora um modelo de propriedade privada absolutamente caquético e incompaginável com o bem-estar elementar, impeditivo de que se deite mão às terras maninhas para as limpar, as pôr a produzir, as dividir convenientemente em talhões e parcelas cujo aproveitamento e cuidado não seja um suplício, sem passar por trâmites exasperantes que só lembram à mentalidade doente de um jurista burguês. É por vivermos sob capitalismo e termos este mesmo modelo de propriedade que prédios devolutos, em risco de derrocada, de curto-circuito, residência de colónias de ratos, depósitos de lixo e doença, permeiam as cidades portuguesas, enquanto quem quer residência tem de ir para confins, viver em casas construídas a eito, sem planeamento, sem conforto, sem segurança em caso de catástrofe (como se vê na Madeira). A lista podia prosseguir indefinidamente.

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Sobre as sanções da Comissão Europeia a Portugal

Reagindo à decisão da Comissão Europeia de sancionar Portugal, João Oliveira afirmou que “esta decisão revela com grande clareza a contradição entre as decisões e posições entre a UE, e os trabalhadores e o povo português. É uma decisão inaceitável, ilegítima atentatória da soberania e dos interesses nacionais.”

TTIP mais um passo na nova ordem mundial – Miguel Viegas

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O TTIP (sigla inglesa de Transatlantic Trade and Investment Partnership) representa mais um passo na tentativa de criação de uma nova ordem internacional acima dos Estados nacionais e ao serviço dos grandes oligopólios, formados por empresas multinacionais que dominam hoje a economia mundial. Embora as negociações formais deste tratado se tenham iniciado em 2013, a verdade é que a sua concretização representa uma velha aspiração do grande capital transnacional dos dois lados do Atlântico. Nestes quase três anos de negociação, muito foi dito e escrito sobre o TTIP. Numa altura em que decorreu a 13.ª ronda negocial, num quadro que deixa antever dificuldades e impasses entre os dois blocos, justifica-se um balanço do que tem sido este percurso atribulado de um tratado contra o qual o PCP desde cedo se pronunciou, ao lado daqueles que lutaram e lutam pelo fim das negociações tentando matar a serpente ainda dentro do ovo.

Origem e percurso de uma aberração jurídica e comercial

Como é evidente, a grande motivação deste tratado nada tem de ver com o desenvolvimento económico e muito menos com o bem-estar das populações. Decorre antes da necessidade de ajustar as superestruturas políticas à escala crescente e cada vez mais transnacional do grande capital. Hoje as grandes empresas multinacionais dominam a economia global. Representam a parte de leão do comércio e do investimento internacional. Neste sentido, procuram criar instituições e acordos que consolidem o seu domínio, limando simultaneamente entraves nacionais onde as estruturas que, mal ou bem, ainda representam os interesses das populações, passaram a representar um obstáculo ao seu desenvolvimento. A existência das empresas multinacionais, reconhecidas como tal, remonta ao século dezanove. Contudo, a sua ascensão como fenómeno dominante da economia mundial é relativamente recente, com um crescimento exponencial a partir dos anos oitenta. Em 1980 existiam cerca de 7000 empresas multinacionais. Em 2000 são 64 000, que controlam 870 000 filiais, sendo responsáveis por mais de 70% dos fluxos comerciais internacionais e empregando 54 milhões de trabalhadores em todo o mundo. O volume de IDE – Investimento Directo Estrangeiro passou de 1600 mil milhões de euros, em 1990, para 6600 milhões de euros em 2001. As empresas multinacionais, fruto de processos de fusões e aquisições à escala planetária (veja-se a recente aquisição da Monsanto pela Bayer), foram o verdadeiro motor da chamada globalização capitalista. Criadas originalmente para quebrar as políticas proteccionistas dos Estados nacionais, as multinacionais transformaram-se num actor político fundamental que influencia de forma decisiva as decisões políticas dos governos e das instituições internacionais. Perante o impasse do ciclo de Doha, as multinacionais procuram impor, no quadro de acordos mais restritos, aquilo que não conseguem impor ao nível da Organização Mundial do Comércio. Desta forma, é claro que os objectivos deste tratado vão muito para lá das relações comerciais entre a Europa e os Estados Unidos, pretendendo criar-se um modelo a impor posteriormente a outros blocos e designadamente à China.

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Renegociação da Dívida Pública – Desenvolvimento e Soberania – Agostinho Lopes

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A 5 de Abril de 2011, o Secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, realizou a Conferência de Imprensa, «Renegociar a dívida pública – Desenvolver a produção nacional», onde se denunciava o «insuportável e ilegítimo processo de extorsão dos recursos nacionais, por via da especulação das taxas de juro sobre a dívida pública portuguesa», e reclamava: «A renegociação imediata da actual dívida pública (…) com reavaliação dos prazos, das taxas de juro e dos montantes a pagar; A intervenção junto de outros países que enfrentam problemas similares(…) visando uma acção convergente para barrar a espiral especulativa, a par da revisão dos estatutos e objectivos do BCE (…)»; «A adopção de uma política virada para o crescimento económico(…) de defesa e promoção da produção nacional»; «A diversificação das fontes de financiamento» e «A avaliação» das Parcerias Público Privadas, visando «a renegociação ou cessação de contratos que se mostrem ruinosos para o Estado».

Estávamos em vésperas do pedido do governo PS/Sócrates, sob o ultimato dos banqueiros nacionais e o apoio do PSD e CDS, para a intervenção da troika. Recorde-se que, nesse mesmo dia, a banca nacional veio publicamente recusar empréstimos ao Estado e exigir o recurso ao FMI.

O PCP afirmava, assim, um caminho de ruptura à política dos PEC – o PEC 4 tinha acabado de ser chumbado na Assembleia da República – e alternativo à ingerência externa e à chantagem dos mercados financeiros!

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Sim à Paz! Não à NATO

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Iniciando-se hoje a Cimeira da NATO, em Varsóvia, na Polónia, o PCP alerta para os seus graves objectivos de incremento da acção belicista deste agressivo bloco político-militar conduzido pelos EUA.

Nesta Cimeira, a NATO afirma um novo patamar na sua acção de tensão e confronto visando a Federação Russa, com os perigos para a paz na Europa e no mundo que tal acção representa.

Agitando de novo a pretensa «ameaça russa» para ocultar o seu propósito ofensivo, a NATO reforça a sua presença e acção militar no Leste da Europa, particularmente na Polónia e no Báltico. Há 25 anos que a NATO não pára de promover a sua expansão para Leste que, tendo passado pela agressão à Jugoslávia, se aproxima sempre e cada vez mais das fronteiras da Federação Russa.

Na sequência da sua agressão à Líbia, a NATO reforçou igualmente a sua presença e acção no Médio Oriente e Norte de África, utilizando, entre outros, o pretexto do drama dos refugiados, pelo qual é dos primeiros responsáveis.

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Comunicado do Comité Central do PCP, de 25 e 26 de Junho de 2016

O Comité Central do PCP, reunido a 25 e 26 de Junho de 2016, procedeu à análise da situação política e social e dos recentes desenvolvimentos no continente europeu e no plano mundial. O Comité Central do PCP, valorizando a intensa e diversificada intervenção política do PCP, sublinha resultados positivos alcançados no quadro da nova fase da vida política nacional e apela ao desenvolvimento, alargamento e intensificação da luta de massas. O Comité Central do PCP procedeu à avaliação da primeira fase de preparação do XX Congresso do PCP, aprovou o regulamento da sua terceira fase preparatória, que se iniciará em final de Setembro, e aprovou os critérios com vista à elaboração da lista do Comité Central a eleger pelo XX Congresso.

I – Defender os trabalhadores, o povo e o País, lutar por um Portugal com futuro

A situação internacional – caracterizada pela instabilidade e crise económica, pela violenta ofensiva do imperialismo e pelo desenvolvimento da crise na e da União Europeia de que o referendo no Reino Unido é o mais importante e recente elemento – influencia a situação política nacional que na actual fase está marcada por elementos contraditórios. Por um lado, por avanços e progressos que, na sequência da solução política e da concretização da posição conjunta subscrita por PCP e PS, têm permitido a reposição de direitos, rendimentos e remunerações – de que o Orçamento do Estado para 2016 é uma expressão. Por outro, pela intensificação de factores de chantagem e pressão desenvolvidos pelo grande capital e a partir das instituições da União Europeia, estimuladas no plano nacional pelo PSD e CDS-PP, a pretexto de eventuais “sanções” ou “medidas adicionais”, do Programa Nacional de Reformas e do Programa de Estabilidade; a recusa do governo do PS em enfrentar decididamente quer os constrangimentos decorrentes de imposições externas – sejam as da dívida, sejam as da União Europeia – quer aqueles que em Portugal, associados ao capital monopolista, limitam as possibilidades de passos mais decididos na inversão da política do anterior governo PSD/CDS-PP. Neste quadro, assume relevo o desenvolvimento da luta dos trabalhadores e das populações e a intensa intervenção do PCP.

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Nota à Comunicação Social – PCP Arouca

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No final do mês de Maio a Ministra da Justiça anunciou a reabertura de cerca de vinte tribunais encerrados pelo anterior governo do PSD/CDS. Esta medida do governo PS vai no sentido positivo, uma vez que reaproxima a Justiça dos cidadãos.

A Comissão Concelhia de Arouca do PCP não deixa de notar, negativamente, que Arouca não recupera o seu Tribunal, admitindo-se apenas um eventual regresso do Tribunal de Família e Menores, segundo o que a Vice-presidente da Câmara Municipal de Arouca afirmou na última Assembleia Municipal.

A confirmar-se apenas esta reabertura parcial, apesar da sua importância  para Arouca e para os arounquenses, dada a sensibilidade, em matéria de Direito e de Justiça,   dos assuntos de família e menores, é manifestamente insuficiente para garantir a política de Justiça de proximidade que Arouca necessita.

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I’m the greatest! – Álvaro Couto

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Vai o título em inglês porque assim foi a frase dita. Este escrito também poderia chamar-se «Muhammad Ali» ou «Cassius Clay», o que esclarece tudo. O texto de hoje refere-se ao mítico, ainda que muito real, pugilista. A poucas pessoas admirei tanto em minha vida, mesmo quando este só dava socos em cabeças de gente. Na minha, inclusive. Nunca o disse pela simples razão de que estas coisas não se dizem, sentem-se e por aí se ficam. Questão de pudor, parece.

O primeiro murro deu-se nos Jogos Olímpicos de 1960. O segundo soco levou-o Sonny Liston, fazendo do nosso homem campeão mundial de pesos pesados. O terceiro murro foi dirigido ao próprio presidente dos EUA. A porrada foi tanta que o «rei do pugilismo» foi abdicado do título e só parou na prisão, recusando-se a participar numa «guerra a 10 mil Km de distância da América, lançando bombas e disparando balas, contra gente, inocente e castanha, que não tinha feito qualquer mal ao mundo». Eu estava ali, um entre milhões, também prestes a embarcar para África, em mais uma guerra do mesmo género, e foi como um murro no estômago. Conheci, depois, o pulsar da esperança na luta corpo-a-corpo com Joe Frazier, a exaltação africana nos murros dados a George Foreman, algures num ringue do Zaire, e a vontade de mudar, voltando a bater novamente em Leon Spinks, e foi como um soco na cabeça que me converteu em algo melhor, menos egoísta, mais capaz de entrega.

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Crescimento Económico e Desigualdade – Francisco Gonçalves

Fruto do ascendente das teses “hayekianas” na direita (e na social-democracia), no caso português particularmente no PSD – na demiurgia iconográfica do partido, uma sobreposição da seta liberal à popular e o desaparecimento da marxista -, leva a que hoje, neste espaço político, se faça uma leitura dicotómica  do mundo, entre o “realismo” (da direita) e  a “ilusão” (da esquerda).

Um tal “realismo”,  auto-classificado de irritante, científico ou “la palissiano” nas três versões disponíveis – da narrativa, dos bem pensantes e dos comuns, respectivamente -, assente na ideia de que só há crescimento económico com redução do custo do factor trabalho, Estado mínimo e Parcerias Público-Privadas. Porquê? Porque só o Mercado, o sector privado e o “empreendorismo” podem trazer prosperidade à Terra.

Esta tese de que só a agenda liberal leva ao crescimento económico e à prosperidade encerra dois equívocos, um de que o crescimento económico de um país depende somente de uma política económica liberal, outro de que o crescimento económico por si só garante o bem-estar geral.

Um olhar para os últimos cem anos da economia mundial desmonta o primeiro equívoco, foram vários os regimes e  doutrinas a conviverem, anos a fio, com robustos crescimentos económicos,  próximos ou na casa dos dois dígitos. Citando só alguns exemplos, de uma ponta à outra  do espectro político: a Alemanha nazi dos anos 30 do século XX, a Europa Ocidental nos 30 anos do Pós-guerra, a China das últimas três décadas ou  a União Soviética até meados dos anos 50 do século passado.

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